Luis Soares
Colunista
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Política 16/Aug/2011 às 16:13
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Indigentes em solo estadunidense: paladinos dos direitos humanos fecham os olhos

Como diriam os mais sensatos: direitos humanos no dos outros é refresco. O caro leitor está cansado de assistir aos EUA elaborarem os seus planos de fachada para salvar países (de preferência com petróleo em abundância) de ditaduras sangrentas e de terroristas maquiavélicos, com a famigerada desculpa de assegurar direitos humanos e instaurar democracia. Ora, se são tão benevolentes com a comunidade internacional, como explicar a situação calamitosa em que se encontram milhares de cidadãos em seu próprio país, sem moradia e mortos nas ruas pela polícia? A maquiagem de Washington não foi boa o bastante para evitar a matéria do grupo Prensa Latina, que você acompanha abaixo. (Pragmatismo Político)
Kelly Thomas, de 37 anos, faleceu a 10 de julho, cinco dias após ser golpeado com bengalas elétricas, lanternas, correntes de couro e pontapés por seis agentes de uma patrulha policial na localidade de Fullerton, Califórnia.
Depois desse incidente, Thomas foi enviado a um hospital próximo,
mas chegou em estado de coma. Seu rosto revelava múltiplas manchas
roxas, arranhões e cortes menores.

Thomas integrava um crescente exército de pessoas nos Estados Unidos que
muitos identificam indistintamente como homeless, sem lar ou deslocados
num sistema que degrada diariamente os seres humanos.

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Há muitos anos, em 1986, em Nova York, na Rua 42, entre a Primeira e a
Segunda Avenidas, leste de Manhattan, sobrevivia à intempérie com o
rosto ulcerado pelas frias temperaturas, próximo à sede da ONU, um homem
de idade avançada. Vivia da caridade pública.

Esse homem era a imagem pública –e a denúncia ante o mundo que ia à
ONU – de um problema persistente no país que se autoproclamava defensor
dos direitos humanos.

Talvez sem sabê-lo, integrava as fileiras de um exército de cerca de 40
mil pessoas que, como ele, não tinha onde viver nessa metrópole. Túneis,
pontes, metrôs e sinistros albergues eram sua moradia, no melhor dos
casos.

Quase trinta anos depois, a presença dos homeless ou sem lar nos Estados
Unidos aumentou. A crise econômica, o desemprego, as drogas, a
discriminação, os veteranos de guerra sem ajuda e outros empurram
milhões de estadunidenses a esta situação.

Diz-se que no mundo há mais de 500 milhões de homeless. Aí se chega
facilmente e muitas vezes não se pode sair, assinalam organizações
sociais.

Fontes do Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano estadunidense
assinalam que é difícil saber o número de pessoas no país que vivem
essa situação.

Há vários anos, em 2004, alguns cálculos sobre o número de
estadunidenses sem teto estabeleciam que eram entre 600 mil e 3,5
milhões, segundo dados da National Coalition for the Homeless (Coalizão
Nacional para os Sem Teto).

Agora é difícil calcular a quantidade exata pela natureza mesma dos sem
moradia. Algumas pessoas passam por esta situação de maneira temporária,
algo agravado pelo desemprego próximo aos dois dígitos que hoje mina a
economia estadunidense.

Para outras pessoas, em especial quem padece da dependência às drogas ou
transtornos mentais, a falta de lar é um problema crônico.

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Segundo a Coalizão, nos Estados Unidos existe abundante material que
documenta episódios de perseguição a desabrigados por parte de
servidores públicos, bem como incidentes vinculados a abusos cometidos
pela polícia, de acordo com dados confidenciais.

Outro setor afetado são as vítimas de maus-tratos. Um estudo realizado
pela Ford Foundation sustenta que 50% das mulheres sem teto vivem na rua
para escapar de parceiros violentos.

Por outra parte, o efeito da crise hipotecária e financeira que golpeia
os estadunidenses também contribui a que muitas famílias, integradas por
jovens, se convertam em assíduas dos centros de atenção aos sem teto,
apesar de não refletirem o estereótipo dos que estão nesta condição.

Já não se trata de homens solteiros, drogaditos, doentes mentais ou
veteranos de guerra. O problema torna-se cada ano mais crônico na medida
em que se torna mais curto o ciclo das crises econômicas.

Na atualidade, 10% das pessoas que engrossaram o número dos homeless são
famílias: homens e mulheres com bons empregos e crianças em idade
escolar, que simplesmente não puderam continuar pagando suas hipotecas.

81% dos desabrigados são mulheres de 25 anos com filhos menores de cinco.

Sem se revelar abrangente, um relatório do Departamento de Moradia e
Desenvolvimento Urbano estadunidense, apesar de não se aprofundar nas
causas deste desastre, sustenta que enquanto o aumento médio de pessoas
sem teto é de 10%, há regiões onde aumentou a mais de 56% em um ano.

Ainda que o governo do presidente Barack Obama tenha destinado US$ 1,5
bilhão para combater a crise residencial, é provável que sejam afetados
como consequência dos “ajustes” impostos pelos republicanos aos
programas sociais para elevação do teto da dívida e redução do déficit.

Há vários anos, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, anunciou um
amplo plano para tentar acabar com os homeless em Manhattan antes de
2010, pois só nas ruas da chamada “Grande Maçã” perambulam mais de 40
mil pessoas sem lar, das quais mais de 16 mil eram crianças.

O quadro é deprimente e reflete outro exemplo para enfeitar a vitrine que Washington trata de ocultar ao mundo.

Prensa Latina

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