Luis Soares
Colunista
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Política 09/Aug/2011 às 21:23
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A destruição de um continente que clama por misericórdia, mas recebe indiferença

A verdadeira África Selvagem não faz parte dos roteiros de TV
Todos sabem que o continente africano é o que paga o maior preço pela
herança colonial
e pela desorganização da produção agrícola provocada
pelos complexos agroindustriais das potências europeias. De acordo com o
Informe sobre Metas do Desenvolvimento do Milênio, publicado em
2010, ”entre os 36 países com índices de mortalidade infantil superiores
a cem por cada cem mil habitantes, 34 estão na África Subsaariana
.”
O legado deixado pelo colonialismo europeu foi extremamente pesado
não apenas no que se refere à destruição da cultura tradicional e das
reservas de fertilização do solo ou equilíbrio natural. Mas há histórias
antigas que devem ser lembradas
para que fiquem evidentes as múltiplas
estratégias de dominação engendradas através da destruição ambiental. 
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Na
África, elas se entrelaçaram à ausência de industrialização,
crescimento demográfico acelerado e deterioração  das relações de trocas
externas, acompanhadas não raro de bloqueios e manobras
desestabilizadoras. A combinação levou o continente ao limiar de uma
catástrofe alimentar sem precedentes.
Os fatos que passamos a narrar mostram a centralidade da questão
ecológica e, obviamente, sua radicalidade ética. Experiências
inovadoras, alternativas aos sistemas produtivos implantados pelas
potências européias e, posteriormente pelo imperialismo estadunidense,
devem ser implementadas. Mas se não há outro método senão o do erro e do
acerto, a experiência acumulada já nos permite evitar a devastação
provocada por crimes ” acidentais”. Relembrar é fundamental para a ação
política.
No final do século 19 a África já tinha sido duramente atingida por
séculos de tráfico de escravos e exploração de seus recursos naturais,
notadamente os minerais. Mesmo assim, ainda existiam no continente
sociedades prósperas e vigorosas, econômica e culturalmente.
Uma única e aparentemente irrelevante intervenção européia mudou esse quadro de forma abrupta, devastadora e irreversível.
Em meados da década de 1880 uma força expedicionária italiana fez uma
de suas periódicas incursões no nordeste da África. Sua permanência foi
curta, mas teve conseqüências catastróficas. Os italianos trouxeram
consigo cabeças de gado para sua alimentação; e essas cabeças de gado
por sua vez trouxeram e legaram à África a Rinderpest, ou peste do gado.
A Rinderpest é uma moléstia infecciosa de ruminantes, altamente contagiosa e virulenta, causada por um vírus, Tortor bovis.
O vírus tem um período de incubação curto, de três a cinco dias. Os
primeiros sintomas da doença são lassitude e inapetência, acompanhadas
de febre de mais de 40 graus. Seguem-se supurações oculares, nasais e
bucais, diarréia, perda de massa corporal, desidratação e desinteria, e
finalmente sobreveem, após não mais de duas semanas, prostração, coma e
morte.
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Originária das estepes da Ásia, a Rinderpest chegou à Europa no
rastro das invasões de povos como os mongóis. Após vários surtos
epidêmicos, a doença se tornou endêmica em algumas regiões da Europa; e,
como freqüentemente acontece com endemias, ocorreu um processo de
seleção natural pelo qual os indivíduos naturalmente resistentes
sobreviviam e se reproduziam, e seus descendentes, ou parte deles,
possuíam imunidade parcial ou tolerância. Eram infectados, mas não
desenvolviam a doença, tornando-se assim portadores e transmissores
assintomáticos.
Mas até então a Rinderpest era totalmente inexistente na África
sub-saariana, possivelmente porque os camelos, os únicos animais a
cruzar o deserto, não eram suscetíveis à moléstia. E portanto nenhuma
espécie nativa era dotada de qualquer defesa imunológica contra a
doença.
Sem a barreira protetora do deserto, a Rinderpest se disseminou de
forma avassaladora, primeiro pelo chamado Chifre da África e rapidamente
por todo o continente. Em 1887 a “peste do gado” surgiu na Eritréia,
local da invasão italiana, e em menos de um ano havia se espalhado por
toda a Etiópia. Dali seguiu dois caminhos. Para o oeste, através do
Sudão e do Chade, e em cinco anos chegou ao Atlântico. Para o sul,
através do Quênia e de Tanganica, e dali penetrando no centro do
continente.
Antes do final do século19 a epidemia tinha chegado à África do Sul,
apesar das tentativas pelas autoridades das então ainda incipientes
colônias inglesas ali já estabelecidas de impedir sua passagem erguendo
uma barreira sanitária ao longo de 1.500 quilômetros, e havia dizimado
quase todo o gado da região. E destruído, por onde passou, as sociedades
nativas.
A doença não afeta seres humanos, mas aquelas sociedades tiveram suas
bases destroçadas. Os pastores e criadores perderam seus rebanhos. Os
agricultores ficaram privados dos animais de tração para seus arados e
para as rodas de água que serviam para irrigar seus campos. E os
caçadores viram desaparecer suas presas, pois a Rinderpest ataca
indiscriminadamente espécies domésticas e selvagens.
O morticínio é até hoje incalculável. Pela fome, e pelas
epidemias oportunistas que se instalaram aproveitando o quadro de
subnutrição generalizada. E também pelo impacto psicológico. Tribos como
os Masai, celebrados como prósperos criadores de gado e bravos
guerreiros, viram toda sua estrutura social desabar da noite para o dia e
se reduziram a pedintes, implorando por comida às caravanas que
cruzavam seu território. Os Fulani, outra tribo antes rica e poderosa,
perderam todo seu gado e, incapazes de aceitar o flagelo que os havia
acometido, se auto-destruíram quase que à extinção matando suas próprias
famílias e se suicidando em massa.
Para as potências coloniais européias a Rinderpest foi uma benção. Ao
avançarem maciçamente sobre a África no final do século 19 e no começo
do século 20 encontraram uma população empobrecida e assolada por
doenças, drasticamente reduzida, em alguns casos a menos de 10% do que
tinha sido uma ou duas décadas atrás, e incapaz de oferecer qualquer
resistência significativa aos invasores. Poucas, se alguma, conquistas
coloniais terão sido tão fáceis quanto a da África pós-Rinderpest.
Mas a peste do gado teve outra consequência: mudou a própria ecologia
do continente. Até então, as grandes manadas que ocupavam as campinas
africanas limitavam o crescimento da vegetação, tanto pelo pasto quanto
por sua presença física. Com o desaparecimento dessas manadas, as
planícies foram tomadas pelas gramíneas, que cresciam sem qualquer fator
limitador, e a vegetação arbórea e arbustífera se espalhou por vastas
áreas de florestas e cerrados.
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Esse ambiente se mostrou propício à proliferação da mosca tsé-tsé, um grupo de insetos hematófagos do gênero Glossina
que infesta tanto animais como seres humanos, e é o transmissor do
parasita causador da trepanossomose conhecida como “doença do sono”
(outra espécie de trepanossoma é causador da Doença de Chagas). A doença
é caracterizada por febre e inflamação das glândulas linfáticas,
seguidas, quando ocorre o comprometimento da medula espinhal e do
cérebro, por profunda letargia (daí seu nome) e, numa alta proporção de
casos, de morte.
De início a Rinderpest também afetou a mosca tsé-tsé negativamente,
ao dizimar seus hospedeiros animais, domésticos e selvagens, e humanos.
Mas a vegetação exuberante que passou a dominar as campinas forneceu o
terreno ideal para que as moscas adultas depositassem suas larvas e
assim procriassem em grande número, o que permitiu à tsé-tsé sobreviver.
Quando a epidemia de Rinderpest cedeu, por falta de vítimas, as
populações de animais selvagens, por não dependerem de humanos para sua
subsistência, se recuperaram muito mais rápida e intensamente do que as
de amimais domésticos e de humanos. E a mosca tsé-tsé pôde se espalhar
pelos novos hospedeiros, livre de qualquer controle. Por sua vez, a
infestação pela tsé-tsé e a doença de que é portadora impediram que os
humanos e seu gado voltassem a ocupar as planícies como áreas de pasto.
Nessas condições, a tsé-tsé passou a dominar o novo ambiente, incluindo o
leste da África onde era inexistente, e regiões do sul do continente em
que havia praticamente desaparecido.
A combinação de mudança ambiental e a devastação colonial fizeram com
que as sociedades já arrasadas pela peste do gado nunca pudessem se
recuperar. Além disso, muitos dos conflitos tribais que hoje ocorrem são
fruto não de rivalidades milenares, mas sim de disputas resultantes da
Rinderpest, quer por comida no auge da epidemia quer pelas escassas
áreas de pastoreio existentes no ambiente por ela criado, e agravadas
pelas tensões geradas pelas fronteiras arbitrariamente riscadas no mapa
pelas potências coloniais.
Ironicamente, outra iniciativa européia, esta bem intencionada,
serviu para preservar as condições econômicas adversas. Os colonizadores
supuseram, erroneamente, que o ambiente com o qual se depararam –
vastas áreas de planícies cobertas por grama alta e ocupadas por animais
selvagens, de cerrados e de florestas, todas infestadas pela mosca
tsé-tsé e sem a presença do homem e de animais domésticos – era a
“África primitiva”; e quando mais tarde surgiram os primeiros movimentos
“conservacionistas” (alguns eivados de uma boa dose de hipocrisia) que
levaram à criação dos parques nacionais e das reservas animais foi esse
ambiente supostamente “primitivo” que se estabeleceu como modelo para a
preservação, não raro com o beneplácito e a colaboração dos governos
locais, desesperadamente necessitados das receitas em moeda forte
provenientes do “turismo ecológico”. Com isso, as áreas de “preservação”
foram para sempre vedadas a qualquer atividade econômica, desprezando o
fato de que, antes da Rinderpest, homem, gado e fauna selvagem dividiam
equilibradamente o território, e de que esse equilíbrio era dinâmico,
com ciclos de predominância dos diversos tipos de vegetação e formas de
ocupação.
Isto criou ainda uma nova figura antes inexistente: o “poacher”, ou
caçador clandestino, tanto para obter alimento quanto para se apoderar,
quase sempre para serem contrabandeados para países ricos, de despojos
valiosos como chifres de rinoceronte ou patas de macacos. O “poacher”
tornou-se, ao lado do ditador caricato, o grande vilão da África
pós-colonial, a ser bravamente combatido pelo destemido “defensor da
natureza”, sejam naturalistas (muitos deles de fato idealistas e
dedicados) sejam heróis de ficção – infalivelmente caucasianos. As
“vozes d’África”, como sempre, não se fazem ouvir.
A África que nos é mostrada hoje, nos documentários sobre a “África
selvagem” e nos noticiários sobre as “guerras tribais”, na ficção
popular e nas biografias romanceadas “baseadas em fatos reais” é,
portanto, em mais de um sentido, uma artificialidade criada pela
intervenção européia, direta e indireta, na ecologia do continente,
incluída sua ecologia social. Um embuste reeditado pelos Nat Geos que se multiplicam nas telas.
Por Gilson Caroni Filho

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