Luis Soares
Colunista
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Política 08/Jun/2011 às 10:55
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Urariano Mota: Como ensinar literatura

Vocês perdoem, por favor, o título pretensioso. Por isso corrijo um pouco.
Deveria ter escrito “Como ensinar literatura para alunos colegiais”. Mas isso ainda é muito. Então esclareço desde já: tentarei escrever alguma coisa sobre a minha experiência com literatura para estudantes. E passo a anotar duas ou três coisas.
Em minhas – na falta de melhor nome – aulas, a primeira coisa que aprendi foi que não se deve falar de literatura como um produto que sai dos livros. Deixe-se isso para os professores de cursinhos, que pensam ensinar enquanto põem o pobre do estudante a decorar nomes, datas, movimentos e obras principais. Isso não é literatura, não serve à literatura, nem serve ao conhecimento. Serve a um sistema estéril e formador de burros. Não se deve jamais falar de literatura com esse nome cheio de pompa e reverência, A Literatura. Fale-se da vida, dos problemas vividos por todos nós, velhos, jovens, crianças, homens, mulheres, animais e gente. Se não for assim, será mais pedagógico contar anedotas da tradução popular de Bocage e de Camões, em lugar dos livros desses excelentes poetas.
Só se deve falar sobre aquilo que apaixona a gente. Por favor, se o professor não descobriu a lírica de Camões, se não maturou no peito Manuel Bandeira, se não vê a beleza de Ascenso Ferreira, se não é capaz de curtir e amar Machado de Assis, se não se emociona até as lágrimas com Lima Barreto, por favor, mantenha distância desses criadores. O silêncio sobre eles fará um dano menor que a citação burocrática. Melhor para o mestre seria cantar Roberto Carlos, equilibrar mesas na ponta do nariz, imitar cornetas com um pente sobre a boca, fazer graça com arrotos cavalares. Seria mais pedagógico.
Um autor deve ser apresentado a partir de um problema, vivido por todos nós. Ora, se querem saber, nada como o conto “Missa do Galo”, de Machado, para todos os adolescentes. Eles entenderão até a última linha, vírgula e pontinho das reticências. Eles vão respirar todos os movimentos implícitos e insinuados da conversa da mulher solitária com um jovem. Eles são esse jovem. Eles sonham com essa noite ideal em que os espere uma senhora sozinha. Elas compreendem esse jovem e essa mulher. O conto tem todos os elementos de promessa de sexo e conflito com o pecado antes de uma missa devota.
Os contos, quando lidos, devem ser muito bem lidos. Quero dizer, com pausas, entonações, vozes, risos, pulos – o que o diabo achar necessário – como um ator de rádio. Isso quer dizer que o professor comanda a narração, faz uma leitura prévia, e pede para que ela continue em volta. Digo que começa com o professor porque nas escolas se perdeu o necessário e fundamental hábito de leitura em voz alta, todos os dias. Então é comum que um jovem estudante não saiba o valor de um ponto, de uma exclamação, de uma vírgula, de uma pausa – o valor ponderado de uma palavra em determinado contexto. Como poderão entender a maravilha de Manuel Bandeira, na infância com o coração a bater, se não souberem que a moça nua lhe fez o primeiro… ALUMBRAMENTO?
Mas entendam, a dramatização dos textos nada tem de dramático. Quero dizer, nada é artifício, artificioso, operístico, melodramático, falso. Ou se fala do que se conhece e do que se vive ou não se fala. Ponto. Deve-se falar do amor, sempre. E nisso não vai nenhum romantismo. Deve-se falar do amor, sempre, porque toda obra é a sua busca ou a sua negação, a sua falta ou plenitude. Mesmo quando se fale da guerra, da violência mais brutal, não se pode esquecer que os meninos no tráfico, por exemplo, amolecem como flores diante de suas mães. Que o bandido mais cruel é capaz de virar o mais perfeito idiota ante a mulher – ou o homem – por quem tenha amor.

Apesar de até aqui ter falado de minha própria experiência, devo terminar com duas coisas ainda mais pessoais:  

Primeira: não consigo até hoje falar de Andersen com profissionalismo, isenção e distância, quando me refiro ao conto “A pequena vendedora de fósforos”. Aquela trajetória da pequena menina que sai a vender fósforos em uma véspera de Ano Bom, nas ruas geladas de uma cidade, que vislumbra pelo vidro embaciado das janelas a ceia posta nas casas burguesas e com profunda fome fica encantada… sei não. E me fere mais, e aí não consigo ir adiante, quando Andersen realiza aquela imagem extraordinária: enregelada, morta, a pequena vendedora sobe “em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo”. Esse é um conto que por várias vezes tentei ler em voz alta, em aulas de português para adolescentes pobres, e por mais de uma vez não consegui. Eu lhes dizia: “adiante”, e me virava para a lousa.
Segunda: Certa vez, li para alunos com idades em torno de 11 anos o meu conto “Daniel”. Claro, expurguei os termos mais fortes, chulos, grosseiros. Quando eu li:
“Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte”,
na sala não se ouvia um só riso, apenas respirações ofegantes. Então eu ia para o quadro e desenhava as sobrancelhas, à Monteiro Lobato, para eles verem.
Depois, já ao fim, quando acrescentava que Daniel raspara aqui e ali o seu estigma, e que “a cirurgia dera nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação”, voltava ao quadro para desenhar os dois pequenos ganchos que ficaram no lugar das sobrancelhas do personagem.
O melhor digo agora no fim. Vocês não vão acreditar no lirismo de que é capaz a infância. Os meninos rebatizaram o conto. Em lugar de Daniel, eles me pediam sempre para ouvir, de novo, “O menino-passarinho”.

*Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). 

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Comentários

  1. Rosi Postado em 08/Jun/2011 às 19:05

    Que texto maravilhoso! Não sou professora de literatura, nem escritora, mas sou mãe e sempre li para o meu filho. Ele gosta de ler, mas está na fase da leitura por obrigação. A escola obriga a leitura de certos livros (alguns muito bons, outros horríveis). O que é muito estranho é que os alunos lêem os livros, fazem uma prova sobre o livro que leram, mas ninguém conversa sobre o livro. Nem mesmo a professora fala sobre o livro. Então, quem conversa sobre o livro com ele sou eu, o que não deixa de ser ótimo porque assim não fico pedindo nomes, mas discutindo nossas impressões.
    Bem, eu só queria mesmo parabenizar pelo lindo texto.
    Rosi

  2. Luis Soares Postado em 08/Jun/2011 às 19:24

    Essa crítica ao tipo de abordagem que se quer levar à Literatura é muito procedente. A realidade da literatura não tem nada a ver com livros didáticos, mas com o lugar indefinido; com se perder para se encontrar mais adiante.

  3. Eric Postado em 09/Jun/2011 às 19:17

    Este texto lembra da literatura em sua forma pura, e não figura de status intelectual.

  4. Radek Postado em 19/Mar/2012 às 02:07

    Meio idiota isso. É totalmente possível ensinar um autor sem gostar dele profundamente. Ensinar literatura não é uma vocação divina. É uma profissão como qualquer outra e pode-se fazer de vários jeitos. Gostando vai ser mais fácil e melhor, mas dá pra fazer não gostando também. E gosta-se mais de uns aspectos da profissão do que de outros.

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