Luis Soares
Colunista
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Política 02/Jun/2011 às 14:25
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Carta aberta

Rel-UITA
Regional Latinoamericana da União Internacional de Trabalhadores da Alimentação, Agrícolas, Hoteis, Restaurantes, Tabaco e Afins
Basta de violência rural! Ante o assassinato de José Cláudio Ribeiro da silva (Zé Cláudio) e Maria do Espírito Santo Silva.
Presidenta da República Federativa do Brasil
Senhora Dilma Rousseff
Palácio de Planalto
Brasília
Estimada Presidenta:
Nos dirigimos à senhora em nome de nossas 374 organizações filiadas, em 119 países, para expressar-lhe nossa profunda consternação pelo assassinato, no dia 24 de maio, no Pará, de um casal de camponeses extrativistas, militantes sindicais e ambientais que há anos lutavam contra o desmatamento e a usurpação da terra.
José Cláudio Ribeiro da Silva (Zé Cláudio) e Maria do Espírito Santo Silva foram friamente executados e parte de suas orelhas foi cortada pelos assassinos como promessa de mais terror e morte para os que continuem a luta.
Esse ato bárbaro, selvagem, seria, com certeza, qualificado em qualquer parte do mundo como “terrorismo”, já que se trata de um crime planejado, organizado, executado por pessoas especializadas, de maneira premeditada, sobre pessoas inocentes e desarmadas, e com um fim político, social e econômico.
Trata-se de “mortes instrumentais”, meras ferramentas para incidir em um conflito que não é privado, mas público.
Foram eles, porém, poderiam ter sido outros, qualquer um desses 300 nomes que integram a sinistra lista dos “marcados para morrer” por uma articulação político-empresarial cujo fim é o lucro e o poder como meio para aumentar suas riquezas.
A violência rural no Brasil atual já não é uma mera prática ancestral com base em relações pseudofeudais, provocada pelos antigos coroneis e pelos barões do latifúndio em uma terra sem lei e até sem deus.
Os assassinos de hoje, os que mandam matar, têm computadores com conexão na Internet, têm celulares 4G, manejam a tecnologia mais moderna disponível para cuidar de seus investimentos no campo, conhecer as previsões climáticas, consultar os preços de exportação, fechar negócios à distância, gerir estoques, mover contas bancárias, etc.
Isso sim, tal qual antigamente, continuam desmatando, continuam servindo-se de uma mão-de-obra barata às vezes, inclusive, escrava; contratando assassinos pagos e beneficiando-se de um esquema de impunidade, assegurando ilegalmente por cumplicidades vocacionais ou interessadas nos estamentos políticos estaduais, o eu transforma essa violência em paraestatal.
É uma verdadeira organização criada para matar, roubar, mentir, manipular; ou seja, o que comumente se chama “crime organizado” ou máfia. Em nenhuma parte do mundo esses grupos mafiosos puderam ser derrotados sem uma ação simetricamente especializada, poderosa e comandada com a vontade política desde o próprio Estado; esse que hoje deixa o campo livre aos facínoras e na maior orfandade à população rural local.
Em uma recente entrevista publicada há apenas 15 dias em nossa página web, integrantes de nossa organização filiada à Confederação Nacional de Trabalhadores da Agricultura (Contag), haviam antecipado o recrudescimento da violência no Pará, possivelmente favorecido pela recente mudança no governo do Estado.
A todos nos dói extraordinariamente que essa previsão tenha sido acertada. Esse terrorismo privado com apoios públicos deve cessar para que o Brasil possa caminhar definitivamente rumo à democracia moderna que já conquistou em outros aspectos essenciais.
Por isso, nos unimos a todas/os os que condenam e rechaçam esses assassinatos repugnantes e reclamamos junto à enorme maioria do povo brasileiro que se instrumentalizem as ações necessárias para enfrentar de forma definitiva, sustentada e sem exceções a essas organizações mafiosas e criminosas que tanto dano têm causado ao Brasil.
Nesse âmbito, como em outros, esperamos verdade, justiça e castigo aos culpados. Esperamos o fim da impunidade para que seja verdade que todos somos iguais perante a lei. Para que seja verdade que todos temos direito à vida e a defender nossos ideais.
Gerardo Iglesias
Secretário Regional UITA
Montevidéu, 30 de maio de 2011.
Tradução: ADITAL

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