Luis Soares
Colunista
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Política 05/May/2011 às 13:39
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Mostrem o assassino do terrorista maquiavélico

Triste da nação que precisa de heróis
Entreguem os SEALs, heróis que mandaram duas balas em Osama bin Laden – duas balas na cabeça, para garantir o serviço –, depois de uma “troca de tiros” da qual não há virtualmente sinal algum na esquálida “mansão” em Abbottabad.
Exibam o maior herói da história moderna, o homem que matou o inimigo público n.1 dos EUA, o mais cruel terrorista da história do universo, o “cérebro” que concebeu o mais espetacular ataque de todos os tempos contra os EUA. 
Desfilem o homem pelo Marco Zero e pelo centro de Manhattan, deem-lhe uma tira de medalhas Purple Hearts e corações de todas as cores do arco-íris, deem-lhe sociedade no Goldman Sachs, mostrem o homem no programa da Oprah, de Rush e Anderson Cooper, introduzam-no ao Hall da Fama do Rock’n Roll. 
Se você é Republicano, lance o homem candidato a presidente; diferente de Donald (aquele que carrega uma raposa no cocuruto) Trump ou de Sarah (“Da minha varanda vejo o Paquistão”) Palin, o SEAL herói, ele sim, reduziria o presidente Barack Obama a dano colateral. Ou, no mínimo, coroem o cara secretário de defesa – supremo propagandista de “assassinatos seletivos” como instrumento insubstituível de diplomacia. 
Segunda tomada 
Volte a fita para a cena de suspense-novelão em toda sua glória de Alta Definição – transmitida ao vivo para a Sala de Situação em Washington. 
O herói, blindado dos pés à cabeça, ereto, face a face com o verdadeiro Osama bin Laden desarmado, arrancado da cama, encurralado num cubículo. Não há fuga possível: toda casa está cercada, hiper cercada, blindada. Por esse momento, os EUA sonham desde 11 de setembro de 2001. 
Cem, mil vezes, a cena foi ensaiada, durante a perpétua “guerra ao terror”. O procedimento: imobilizar o suspeito, meter-lhe a cabeça num saco, arrastá-lo para um helicóptero (havia três do lado de fora; o quarto já se espatifara), dali diretamente para uma base militar, e da base, em macacão cor-de-laranja, direto para Guantánamo. 
Agora o herói encara o homem que criou, que inventou, que pariu a “guerra ao terror”. E o que faz o herói? Nenhum tiro em braço, perna, joelho. Nem granada de gás paralisante jogada com técnica. Nada de “entrega extraordinária” de prisioneiro – e para que serve tudo isso, se nada disso se usou para “conter” o inimigo público n.1? 
O herói, pá-pá, manda dois tiros no fugitivo – codinome “Gerônimo” (herói de uma tribo dos EUA que desafiou o império inglês; e mais uma vez humilharam e degradaram os indígenas nativos dos EUA). Assim terminou a maior, mais cara, mais longa caçada humana que o mundo jamais viu: não num big bang, mas em dois balaços. Os bons reconhecem os maus pelo fedor. Dirty Harry fareja os punks. 
E assim, ninguém jamais saberá coisa alguma. Como “Geronimo” foi patrimônio ativo da CIA – e como essa “amizade” progrediu ao longo dos anos 1980s. Como o homem escapou de Tora Bora – ou como o Pentágono o deixou escapar. Como viveu no Paquistão todos esses anos, sem jamais ser perturbado. Porque “nos odiou” tanto. 
Mas o que ninguém jamais saberá é como aquele  “cérebro” concebeu o 11/9. Que ramo – ou ramos, ou indivíduos – da rede de inteligência dos EUA sabia de tudo desde antes e deixou que acontecesse. Como aconteceu de um grupinho de árabes com canivetes e habilidade menos que zero para voar jatos não só os voaram como os converteram em mísseis e destruíram as Torres Gêmeas (mais o prédio 7) e uma fatia gorda do prédio do Pentágono? 
Quem, no planeta, se atreveria a desgrudar da televisão, meses a fio, no mais impressionante julgamento de todos os tempos? 
Há razões para desconfiar que as entidades – o sistema – que montaram a cena-golpe-detonação não gostariam muito, se acontecesse o que teria de acontecer e aconteceria, se Osama bin Laden fosse julgado. Então… o veredito é “culpado”, nos termos da acusação (que não houve). E execute-se o homem, duas balas na cabeça. Nunca foi mais fácil naufragar num lodaçal e chamar o naufrágio de “justiça”. 

Quanto ao resto de nós, fomos deixados, para sempre, no escuro.

Texto de Pepe Escobar, no Asia Times Online

Com Blog do Castorphoto

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