Luis Soares
Colunista
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Política 20/May/2011 às 15:37
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Defesa de Obama sobre Estado palestino não passa de retórica

Clemesha: Obama não reconheceu Estado palestino, nada mudou
Brack Obama segue favorecendo Israel, avalia especialista
Celebrado como um discurso histórico, o pronunciamento do presidente americano Barack Obama sobre o Oriente Médio, realizado nesta quinta-feira (19), não traz novidades, na opinião da especialista em história palestina Arlene Clemesha. “Ele não reconheceu o Estado palestino“, contesta a professora da Universidade de São Paulo e membro de comitê de coordenação das Nações Unidas na Palestina, o ICNP-UN.
A pesquisadora avalia que Obama deixou brechas no discurso americano que anulam seu apoio à construção de um Estado palestino nos limites territoriais anteriores à guerra de 1967, quando Israel anexou parte da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, de Jerusalém Oriental e de Golã. 
Em um momento de sua fala, Obama diz que ainda faltaria resolver a questão de Jerusalém: “Estou certo de que esses passos sozinhos não irão resolver o conflito, porque dois assuntos persistentes e emocionais vão continuar: o futuro de Jerusalém e o destino dos refugiados palestinos”. 
Para Arlene, essa ressalva dificultará a aceitação de um acordo de paz pelos palestinos:
– Se você for respeitar as fronteiras de 67, isso significa devolver Jerusalém Oriental. Obama já tirou isso da questão. E isso é muito grave porque nenhum palestino vai aceitar um acordo sem Jerusalém Oriental. 
A professora avalia que a maior importância do discurso foi mandar uma mensagem ao Oriente depois da morte do terrorista Osama Bin Laden. “Ele quis aliviar qualquer tipo de tensão que há em torno da morte na região”. 
Obama declarou: “No momento em que encontramos Bin Laden, a agenda da Al Qaeda já era vista como sem futuro pela maioria na região e as pessoas do Oriente Médio e do Norte da África já estavam cuidando de seu futuro em suas próprias mãos”. A referência ao futuro da região é uma menção aos protestos por democracia que surgiram em vários países. Na opinião de Arlene, o presidente americano “quis colocar que a morte de Bin Laden é uma ajuda às revoluções árabes”.
Leia a entrevista. 

O discurso de Obama foi relevante para o reconhecimento do Estado Palestino?
Arlene Clemesha – Foi um discurso muito cuidadosamente elaborado. Ele não reconheceu o Estado palestino. Ele falou que apoia a criação do estado Palestino nas fronteiras anteriores a 67, com trocas territoriais acordadas, de comum acordo. Isso é o que sempre foi dito. Eu considero que esse “com trocas territoriais acordadas” indica que ele não reconhece as fronteiras de 1967. E isso é apenas um dos pontos.
O que mais a senhora destacaria?
Ele retoma o assunto depois e diz que vão restar ainda por resolver dois assuntos: Jerusalém Oriental e os refugiados. Se você for respeitar as fronteiras de 67, isso significa devolver Jerusalém Oriental. Então, ele não está reconhecendo as fronteiras de 67. Já tirou Jerusalém Oriental da questão. E isso é muito grave porque nenhum palestino vai aceitar um acordo sem Jerusalém Oriental. 
Na sua opinião, então, Obama enganou todo o mundo?
Sim. Ele ainda disse que é contra qualquer ação unilateral. Com isso, ele quer dizer que, se passar pelo Conselho de Segurança, ele vai vetar o ingresso da Palestina na ONU. Foi um discurso cheio de dois pesos e duas medidas, o tempo todo. Os Estados Unidos sempre aceitaram ações unilaterais de Israel. E agora dizem que não aceitarão dos palestinos, que são os únicos que tomam iniciativa pela paz. Israel não faz nada, o que é muito estranho diante do movimento das revoluções árabes que vem acontecendo.
Mas no discurso Obama condenou os assentamentos israelenses em territórios de ocupação palestina.
Isso não deixa de ser importante. Mas a posição formal dos Estados Unidos sempre foi essa. Na prática, ele condenou os assentamentos, mas não apoiou a criação do Estado nem deu qualquer tipo de sinalização sobre como avançar para a criação do Estado. 
Então por que fazer esse discurso neste momento, após a morte de Bin Laden, num momento em que todas as atenções estão voltadas para o Oriente Médio e norte da África?
A minha leitura da importância disso é que Obama também deturpou o significado da morte de Bin Laden. Ele quis colocar que a morte de Bin Laden é uma ajuda às revoluções árabes. Essa era a mensagem que ele queria passar. Com isso, queria aliviar qualquer tipo de tensão que há em torno da morte de Bin Laden. Ele disse que esse assassinato foi uma ajuda, coisa que não é. A única coisa que pode ajudar é um auxílio econômico para os novos governos e, sobretudo, ficar de fora. A única coisa que pode acabar com métodos terroristas é não intervir. Os únicos que podem acabar com as ditaduras são os que estão lá dentro.
Dayanne Souza,
Terra Magazine

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