Luis Soares
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Homofobia 24/May/2011 às 10:06
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Como na Inquisição: Pastor sofre ameaças por defender união homoafetiva

Após defender o Estado laico e o reconhecimento jurídico da união homoafetiva, o pastor Ricardo Gondim, líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista, virou alvo de ferrenhos ataques de grupos evangélicos na internet

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Pastor Ricardo Gondim

Um fiel chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse “arrancaria a cabeça” do pastor herege. “É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição”, comenta Gondim, que já previa uma reação de setores do mainstream evangélico, os movimentos neopentecostais com forte apelo midiático. Surpreendeu-se, no entanto, ao ser informado que, graças às declarações feitas à revista, não poderia mais escrever para uma publicação evangélica na qual é colunista há 20 anos.

“Fui devidamente alertado pelo reverendo Elben Lenz Cesar de que meus posicionamentos expostos para a revista CartaCapital trariam ainda maior tensão para a revista Ultimato”, escreveu Gondim em seu site pessoal, na sexta-feira 20. “Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um Estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.”

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Por telefone, o pastor explicou as razões expostas pela revista evangélica para “descontinuar” a sua coluna, falou sobre as ofensas que sofreu na internet após entrevista à revista CartaCapital. “A entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos.”

Qual foi a justificativa dada pela revista Ultimato para descontinuar a sua coluna na publicação?

Ricardo Gondim: Eu escrevi para a Ultimato por 20 anos. Trata-se de uma publicação evangélica bimensal, na qual eu tinha total liberdade para escrever sobre o que quisesse. Não falava apenas da doutrina, mas de muitos assuntos relacionados ao cotidiano evangélico. E nunca sofri qualquer tipo de censura. Mas, agora, eles entenderam que as minhas declarações a CartaCapital eram incompatíveis com o que a Ultimato defende e expuseram três argumentos para justificar a decisão. Eu não concordo com essas teses e, para dar uma satisfação aos leitores, publiquei uma carta de despedida no meu site (www.ricardogondim.com.br)

A defesa dos direitos civis de homossexuais foi um dos aspectos criticados pelo corpo editorial da revista?

RG: Sim. Eles entendem que o apoio à união civil de homossexuais abriria um precedente dentro das igrejas evangélicas para a legitimação do ato em si, a homossexualidade. Tentei explicar que uma coisa é teologia, outra é o ordenamento das leis. Num Estado é laico, não podemos impor preceitos religiosos à toda a sociedade. Uma coisa não transborda para a outra. Dei como exemplo o fato de a Igreja católica viver muito bem em países que reconhecem juridicamente o divórcio, embora ela condene a prática e se recuse a casar pessoas divorciadas. Eu não fiz uma defesa da homossexualidade, e sim dos direitos dos homossexuais. O direito deve premiar a todos. Num Estado democrático, até mesmo os assassinos têm direitos. Não é porque eles cometeram um crime que possam ser torturados ou agredidos, por exemplo. As igrejas podem ter uma posição contrária à homossexualidade, mas não podem confundir seus preceitos com o ordenamento jurídico do país ou tentar impor sua vontade. Muitos disseram que o Supremo Tribunal Federal tripudiou sobre as igrejas evangélicas ao reconhecer a união estável homoafetiva. Nada disso, o STF estava apenas garantindo os direitos de um segmento da sociedade. Essa é sua função.

Quais foram os outros aspectos criticados?

RG: Eles também criticaram uma passagem da entrevista na qual eu contesto a visão de um Deus títere, controlador da história e da liberdade humana, como se tudo que acontecesse de bom ou ruim fosse por vontade divina e ou tivesse algum significado maior. E apresentaram um argumento risível: o de que a minha tese coloca em xeque a ideia de um Deus soberano. Claro que sim! Deus soberano é uma visão construída na Idade Média, e serviu muito aos interesses de nobres e pessoas do clero que, para justificar seu poder, se colocavam como representantes da vontade divina na terra. Só que essa visão é incompatível com o mundo de hoje. O Estado é laico. As pessoas guiam os seus destinos. Deus não pode ser culpado por uma guerra, por exemplo. Não vejo nisso nenhuma expressão da vontade divina, nem como punição.

O fato de o senhor ter criticado a expansão do movimento evangélico no País também foi destacada?

RG: Sim. Eu fiz um contraponto à tese de que o Brasil ficará melhor com o crescimento da comunidade evangélica. Não acho que é bem assim. Critica-se muito a Europa pelo fato de as igrejas de lá estarem vazias, mas eu não vejo isso como um sinal de decadência. Ao contrário, igreja vazia pode ser sinal do cumprimento de preceitos do protestantismo se os cidadãos estão mais engajados com suas comunidades, dedicados às suas famílias, preocupados com os direitos humanos, vivendo os preceitos do cristianismo no cotidiano. Eu critico essa visão infantilizadora da vida, na qual um evangélico precisa da igreja para tudo e Deus é responsável por tudo o que acontece.

O senhor se arrepende de ter concedido aquela entrevista à CartaCapital?

RG: De maneira alguma. O repórter Gerson Freitas Jr. até conversou comigo, preocupado com a reação que as minhas declarações poderia causar na comunidade evangélica. Mas a entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos. Eu já esperava alguma reação, só não sabia que viria com tanta virulência. Um evangélico chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse arrancaria a minha cabeça. É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição. Recebi inúmeros e-mails com ofensas e mensagens de ódio. Não sei precisar quantos, porque fui deletando na medida em que chegavam à caixa postal. Também surgiram centenas de textos me satanizando em blogs, sites e redes sociais.

E entre os fiéis da sua igreja? Houve algum constrangimento?

RG: Alguns, influenciados pelo bafafá na internet, vieram me questionar. Então fiz questão de dar uma satisfação à minha comunidade. Após discursar, acabei aplaudido de pé, fiquei até meio constrangido diante daquela manifestação de apoio.

Fonte: CartaCapital

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Comentários

  1. Sovereign Postado em 25/May/2011 às 11:30

    "Data maxima venia" eu penso que a problemática está nas motivações para o que feito, se torna lei. A sociedade já aceita sem problemas o relacionamento homossexual, queiram ou não os fundamentalistas, inclusive no âmbito dos tribunais, como temos já observado, fartamente.
    Vale lembrar que em sociedadas ditas "mais desenvolvidas", como a sociedade norte-americana, a união homo-afetiva NÃO É UNANIMIDADE, embora seja aceita sem problemas. Tanto que apenas CINCO estados da federação americana têm legislado favoráveis ao assunto. Então, porque o açodamento tupiniquim, nacional, em tornar isso "erga omnes" oficialmente?
    Penso que há interesses materiais sérios por trás da decisão do STF.
    O Pr. Gondim por incrível que possa parecer a muitos evangélicos (e eu o sou) ESTÁ CORRETO.
    Todavia é mister considerar também o que há nos bastidores. Olhar a decisão por ela somente é tão inócuo quanto dizer que não há preconceito racial nos Estados Unidos, por exemplo.

  2. Kátia Calado Postado em 26/May/2011 às 11:44

    O pastor demonstrou ter um posicionamento bastante assertivo e coerente com o cristianismo no tocante a amar o próximo acima de todas as coisas e fazer o bem. Apesar de não ser cristã concordo com o dogma, tendo em vista que o mesmo é atemporal e está acima de qualquer discussão de cunho religioso.
    Acredito que precisamos ajudar, tentar entender e, sobretudo, amar nossos irmãos (sentido humanidade) independentemente das diferenças de credo, cor, etnia, status social, condição sexual, etc. Conseguir "exercitar" nossa tolerância diante das diferenças já é um enorme passo.
    As palavras chaves são: parcimônia, moderação e respeito, quando não houver nada positivo a sugerir é melhor silenciar e refletir.
    Gostaria de alertar os leitores para o fato de que não existe nenhuma teoria de conspiração no Supremo Tribunal Federal, nossos Ministros apenas acompanharam a evolução social para conferir força de Lei ao óbvio.
    É fundamental que todos entendam que não há nada de estranho ou fora do comum na decisão do STF. Nossos ministros utilizaram o Costume - fonte do Direito, para votação e publicação da formalização da união homo-afetiva, sem mistérios ou celeumas. Simples, nada mais. O bom senso prevaleceu em prol do bem comum e da paz social.
    No mais, é importante ressaltar que o pastor Ricardo Gondim apenas lançou mão do seu direito constitucional de liberdade de expressão, demonstrando com clareza, a força genuína do seu amor ao próximo.Simples, nada mais.
    Congratulações ao pastor pela determinação, firmeza e coragem, a sociedade agradece!
    Kátia Calado

  3. Thiago Postado em 20/Sep/2011 às 16:17

    Eu estou muito feliz e grato pelo posicionamento do pastor Gondim! Sempre achei um erro dos religiosos confundirem seus preceitos morais com as Leis da sociedade! O pastor apenas mostrou que ele não confunde as coisas! E vejam só o que aconteceu... Os próprios colegas que se dizem cristãos vieram cheios de ódio no coração, porém nem todos (graças a Deus); os que o aplaudiram de pé são tão "bons" quanto ele! Parabéns!

  4. BLOG DA SANDRA PAULINO Postado em 15/Dec/2011 às 17:09

    Creio que esse pastor, por ser verdadeiro e coerente, será muito, mas muito malhado. Contudo, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Quem conhece a Quem ele serve, certamente já sabe que o final dessa história se chamará VITÓRIA.

  5. Zack the Jack Postado em 16/Dec/2011 às 12:13

    Tomoemos o postulado "Penso que há interesses materiais sérios por trás da decisão do STF." Acaso o senhor diria que a manutenção de uma visão extremamente preconceituosa e radical sobre estes pontos que o pastor levantou é puramente teológica, ou também poderiam haver interesses materiais sérios por trás da deste posicionamento?

    Explico: discursos radicais geralmente são utilizados para alienação das mentes em conformidade dos alienadores, visando manter um rígido controle sobre suas ações, o que se traduz tanto em *poder* quanto em ganho financeiro por parte de Igrejas que mais parecem os Mercadores do Templo, e que por sinal são sempre as mais raivosas...

  6. mendesmartini Postado em 19/Jan/2012 às 12:26

    "Um evangélico chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse arrancaria a minha cabeça"

    Quanto amor cristão, não é? Dá pra ver que esse "evangélico" realmente segue os ensinamentos bíblicos. Afinal, não foi Jesus que disse "se alguém te bater na face direita, corta-lhe a cabeça"?

    Hmmm... ou teria sido a Rainha Vermelha? Agora fiquei confuso...

  7. Lyndy Luca Postado em 04/Aug/2012 às 20:20

    Creio que todos caminhamos para a evolução, e talvez esse posicionamento do pastor Ricardo Gondim seja um divisor de águas no grupo evangélico. Eu, pessoalmente falando, espero que sim, que as pessoas alarguem seus pontos de vista, que parem de olhar exclusivamente para SI próprias, SEUS benefícios, SUAS opiniões, SUA liberdade, SEUS direitos, e ampliem para o COLETIVO, porque Deus é para todos, e não apenas para alguns. Igualmente falando, direitos e deveres são para todos. Parabéns a este corajoso e decidido pastor, que resolveu mostrar que há sim, pessoas dentro deste grupo que coloca tantos entraves aos diereitos alheios, em detrimento de suas próprias convicções religiosas, que consegue distinguir, dentro do estado reconhecidamente laico em que vivemos, que não se pode misturar "alhos com bugalhos", pois há imensa incompatibilidade. Credos, dogmas, ritos, ritualísticas, preceitos doutrinários, religiosos são uma coisa, direitos civis, humanos, são outra. Assim DEVE funcionar um estado LAICO. De resto, que cada um viva a sua vida conforme acha que deve, sabendo sempre respeitar o bom senso, as leis e o próximo. Que a comunidade evangélica se permita evoluir, crescer! Fará bem não apenas a si mesma, como também as sociedades em que se integram.

  8. Lyndy Luca Postado em 04/Aug/2012 às 20:28

    Kátia Calado, que grande contributo seu comentário nos trouxe! Satisfação imensa ao dele deliciar-me!

  9. Lucrecio Postado em 28/Apr/2014 às 04:08

    Não sou cristão! Mas parabenizo pela sua lógica e discernimento!