Luis Soares
Colunista
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Política 09/May/2011 às 15:49
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Blogueiro Ricardo Gama sai do hospital e fala do atentado

Ricardo ainda com sequelas dos tiros que levou no RJ
O blogueiro Ricardo Gama foi alvo de um atentado no dia 23 de março, quando tomou 6 tiros pelas costas perto de sua casa, em Copacabana, na zona sul do Rio. Sua principal suspeita é queima de arquivo, para silenciar alguém que sustenta críticas ácidas à prefeitura e ao governo do estado. Gama foi internado imediatamente no hospital Copa D’Or, onde foi submetido a cirurgia, e sobreviveu às três balas que entraram no seu corpo. Uma delas ainda se encontra alojada em sua cabeça.
Nesta entrevista o ex-advogado, com 40 anos, pai de dois filhos pequenos e com a esposa aos 9 meses de outra gravidez, fala sobre as modificações nas comunicações de massa e explica de onde veio sua necessidade de criar um blog. Apesar de ver a morte de perto, sua expectativa é criar um site de notícias e continuar trabalhando com o mesmo ponto de vista: fazendo denúncias em defesa do povo e defendendo a liberdade de expressão.  Para ele, “a internet vai conseguir quebrar o monopólio dos grandes meios de comunicação”.
Nesse atentado qual a sua maior suspeita, você relaciona a algo específico?
O blog, com certeza. Ontem (11/04) várias pessoas vieram me lembrar de um detalhe que eu já sabia e tinha me esquecido, eu sou testemunha de um processo de cassação do governador Sérgio Cabral. É sobre a questão do vídeo do Leandro (durante a inauguração de obras do PAC de Manguinhos, em 2009), que o governador chama o menino de otário, e sobre campanha eleitoral. Meus amigos disseram que não querem criar teoria da conspiração, mas me alertaram desse processo que eu sou testemunha chave. Me contaram há 4 meses atrás, e eu vou ter que comparecer. Pedi para o advogado a cópia da petição, porque eu nunca tinha visto esse processo, e eu sou arrolado como testemunha desde a entrada do processo, isso tem 8 meses. Não estou dizendo que o meu atentado tem alguma coisa a ver com esse processo, mas a gente passa a desconfiar de tudo depois que toma 6 tiros na rua.
De onde surgiu essa sua necessidade de ter um blog e sustentar opiniões críticas?
Eu sempre gostei de internet, fui um dos primeiros brasileiros a ter computador. Desde a época do TK 85, CP 200, MSX, sempre fui muito viciado em computador. Tanto que eu nunca imaginei que fosse fazer uma faculdade de direito, sempre achei que faria uma faculdade de informática. Eu com 12 anos, quando ninguém tinha computador, já era viciado naquela porcaria. Só que o destino fez com que eu acabasse entrando na área de humanas, e me afastei da área tecnológica, mas nunca larguei a informática. Sou viciado em internet e tudo que você imaginar de aparelho tecnológico, internet é um negócio surpreendente.
O Blog eu comecei em casa, o primeiro vídeo que eu fiz foi lá no Fórum. Eu estava com uma camerazinha, que eu usava para fotografar processos: eu filmei um advogado sendo preso por uns PM’s. Achei aquele negócio meio complicado, coloquei no youtube e deu a maior repercussão. Três meses depois um amigo meu me chamou no morro Dona Marta, porque o governador foi inaugurar um negócio lá. Ele tinha fechado o teleférico e os moradores começaram a reclamar querendo subir, e eu pedi para um segurança e os caras na maior grosseria. De repente eu vejo o carro da comitiva do governador: 15 carros emplacados em Minas Gerais, Belo Horizonte. Eu achei aquilo estranho, ai a ficha caiu. Provavelmente é carro terceirizado, de locadora, mas quer dizer que o IPVA compensa mais em Minas? Será que o governador não privilegiou determinada empresa? Peguei minha máquina e comecei a fotografar as placas dos carros, e nisso vieram três caras me jogando numa parede chapiscada e eu caio no chão, câmera para um lado e eu pro outro. Todos de terno e gravata: “Está fotografando o que ai?” “Eu sou advogado, calma cara, estou fotografando os carros”. Ai eles começaram a me ameaçar, os caras queriam tomar a minha câmera.
O governador desceu, nem deu atenção, daí eu criei o blog e comecei. Fiquei revoltado com a forma que me trataram, me espancaram, me jogaram na parede e no chão, ameaçaram tomar minha câmera. E o cara veio falar: “Você não vai divulgar isso”. O quê? Cheguei em casa e não sabia nem o que era blog, fui lá e criei um na hora e comecei a mandar e-mail para tudo quanto é deputado, político, não sei o que. Desde então não teve um dia que eu não colocasse 5 postais no blog. Pela primeira vez meu blog ficou sem movimentação agora, desde o dia 23.
Você concilia o blog com a advocacia?
Não, larguei a advocacia e me especializei nessa questão de rede social. No meu blog particular eu não ganho nada. Praticamente tudo o que eu uso são ferramentas disponibilizadas pela rede. Por exemplo: para você associar um twitter, um orkut, facebook, etc, para colocar teu blog lá em cima você tem que ter vários “massetes”. Não faço outra coisa da vida sem ser estudar isso, e acabei conhecendo pessoas e prestar assessoria jurídica para meia dúzia delas ganhando muito menos do que eu ganhava na advocacia. Mas minha esposa fala que hoje, antes desse acontecimento, eu sou muito mais feliz. Eu como advogado fazia 8 audiências por dia e chegava estressado em casa, eu era da área trabalhista.
Você tem o seu ponto de vista crítico, por isso e em função da falta de espaço na mídia procurou a internet para se expressar?
Você não encontra espaço. Eu sou assinante de quase todos os jornais, fora os portais de notícias como G1 e R7, e você vê que a Folha e o Estadão trazem mais matérias denunciando irregularidades no estado do Rio de Janeiro que os próprios jornais cariocas. A imprensa no Rio não traz uma denúncia sequer contra o estado. A imprensa é conivente, está todo mundo com o Cabral. No meu blog já cansei de explorar manchetes: O Globo dá uma matéria e coloca um título, a mesma matéria O Dia e a Folha dão com outro título. A matéria é a mesma, mas a manchete parece que modifica a matéria, é impressionante.
Você acha que as interpretações são muito diferentes?
Claro, tudo de acordo com os interesses de cada meio de comunicação.
Mas você falou em monopólio, que é uma coisa concentrada.
Quem monopoliza a imprensa no Rio de Janeiro a gente sabe, não precisa citar nome. E a internet vai quebrar esse negócio, tanto que no ano passado saiu uma matéria dizendo que pela primeira vez na história as agências de propaganda direcionaram mais verba para os sites de notícias do que para os meios de comunicação. A internet assumiu a liderança em recurso.
Eu estava no Complexo do Alemão com os caras invadindo, o pessoal da Globo veio chamar o comandante para me expulsar porque eu estava dando o furo antes deles. Eu tenho um telefone que eu faço a transmissão ao vivo para o meu blog. Mas eu não sou imprensa, falei para o comandante do Batalhão de Choque: o senhor me conhece e sabe que eu estou em todas as operações, você sabe que a lei de imprensa foi derrubada e o próprio ministro Marco Aurélio de Melo foi bem claro ao dizer que não existe nem mais registro do órgão competente.
Você acha que a mídia é manipulada?
Quando caiu o helicóptero no Morro dos Macacos eu estava lá, fui um dos primeiros a saber por um amigo meu da PM. Liguei o computador e nada, não tinha saído na imprensa ainda. Fui para lá e no meio da Avenida Brasil começou a noticiar o fato, quando eu cheguei a imprensa já estava lá. Começou aquela adrenalina, o mundo inteiro lá, e eu flagrei a jornalista que implorou pra mim não filmar. Uma jornalista, de uma rede de televisão, brigando com o seu superior porque ia entrar ao vivo e falava: “Porra eu não posso falar isso, não posso falar aquilo, não posso falar governador. O que eu posso falar, então?” E eu filmando ela, que ia entrar ao vivo só que o cara não deixou ela falar um monte de coisa.
Como você situa o seu caso dentro desse contexto que você relatou? 
Eu não consegui ler tudo sobre o que aconteceu comigo, porque minha visão está voltando ainda, mas eu li que eu fiquei durante 4 dias no top do twitter. A maioria das críticas que as pessoas faziam era que a imprensa não estava noticiando o meu caso, estavam batendo nas grandes emissoras pesadamente, como o Boechat bateu hoje. Ontem um vereador falou que ia me mandar um vídeo, e me interou: O Faustão no domingo retrasado resolveu falar que Nova Friburgo estava mil maravilhas depois das chuvas, e um vereador disse que era mentira. Ele disse que estava tudo abandonado, escreveu tudo no twitter, dizendo que o Faustão devia se informar mais. Aquilo criou uma repercussão violenta no twitter contra as organizações Globo, criou uma repercussão muito negativa contra o Faustão. O Fausto Silva é um apresentador que não precisa fazer política, não precisa falar bem ou mal de governador, ele está acima desse patamar. Ele é apresentador, o programa é dele, e o vereador escreveu uma carta que chegou no programa. O Fausto Silva leu a carta, disse que realmente se equivocou, que realmente ainda está ruim em Nova Friburgo e tirou o dele da reta. Ou seja, foi uma retratação que o Faustão fez ao vivo, e sem a Globo autorizar ou não. Todo mundo elogiou ele no domingo, então são coisas que não aconteciam antigamente.
Aonde você já viu uma Globo deixar de fazer uma mudança por causa da opinião pública? A internet nada mais é do que a opinião pública que conseguiu, do nada, se expressar. Você reúne ali 20 pessoas e de repente tem mil, e aonde nós vamos parar? Nos Estados Unidos já tem as televisões saindo com internet. O grande problema dos grandes meios de comunicação era o controle remoto, você mudava de canal. E quando vir a televisão em que você aperta um botão e entra no Blog do João da Silva? Então não se sabe mais onde isso vai parar. A gente tem visto revoluções, o rei do Egito que caiu e uns dizem que foi por causa da internet. Informação é tudo.
E a investigação, como está?
Investigação? Até hoje (11/04) não me chamaram. Lá na escola que aquele psicótico matou 11 alunos prenderam 2 caras que há um ano atrás venderam a arma para ele. Quando a polícia quer, a polícia é eficiente. Esse que é o problema, eu nem chamado para depor fui. Eu ia hoje na delegacia e disseram que o inquérito está sob sigilo, por quê? Acho estranho, eu sou parte e advogado, tenho direito de ter acesso ao inquérito. Tem que andar, era dia de feira, dezenas de pessoas na rua, 11h da manhã, um cara me dá 6 tiros e entra num carro e ninguém vê nada? Já ouvi muito boato de que não tem interesse em investigar e noticiar. Eu tenho os meus suspeitos, já venho recebendo ameaças há um ano. Tem um monte de comentário no blog que eu nunca apaguei.
Acho que não tem interesse em investigar, por mais boa vontade que o delegado tenha. Conheço a fundo a máquina judiciária, a delegacia de polícia não tem como trabalhar, até hoje não fui chamado para fazer uma perícia. O delegado e o inspetor foram me ouvir na cama, e depois fizeram uma oitiva informal. Eles foram super atenciosos comigo. E teve uma bala extraviada do Copa D’or, que tirou a bala mas não chegou na delegacia. A sociedade continua frágil como ela sempre foi, você cala uma pessoa com uma facilidade impressionante. É a imprensa que protege a sociedade, e o dia que o povo se conscientizar disso o Brasil vai ser outro. Vocês jornalistas fazem o trabalho de vocês, mas chega lá na frente no editorial e sabe o que acontece né…
Vai continuar no blog e com a mesma linha?
Sem dúvida, não há a possibilidade de parar. Vou tomar mais cuidado, não tenho peito de aço nem sou super homem, mas parar não vou. O meu objetivo é montar um site de notícias, viver disso. Se necessário for, até para ganhar um respeito maior, faço uma faculdade de jornalismo. Meu objetivo é mostrar a verdade, fazer um site de notícias imparcial. Nada de se é o governador fulano ou ciclano. Eu acho que a população tem o direito e deve saber a verdade acima de tudo. O povo não pode ser enganado.
E isso é um caminho sem volta, não tem mais como a verdade ficar escondida, a internet criou uma fronteira que não vai se fechar mais. É liberdade de informação, o povo precisa saber da verdade. Você não chega a nenhum lugar nem resolve nada na vida se você não souber a verdade.
Fazendo Media

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