Luis Soares
Colunista
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Política 03/Apr/2011 às 12:48
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O amor do ocidente aos rebeldes líbios

O império multinacional montou um grande negócio para si próprio: utilizar o próprio dinheiro da Líbia para financiar rebeldes líbios a combaterem contra a Líbia. Ali Tarhouni, economista formado nos EUA que acaba de ser nomeado “ministro das finanças” do “Conselho Nacional Interno de Transição” (rebelde), explica o negócio: “Neste momento não há crise imediata de falta de dinheiro. Temos alguma liquidez que nos permite fazer as coisas básicas”, disse ele, tais como pagar salários e necessidades imediatas.
Ele acrescenta que muitos países concordaram em conceder crédito com a garantia do fundo soberano líbio e o governo britânico também concordou em dar aos rebeldes o acesso aos 1,4 mil milhões de dinares (US$1,1 mil milhões) que Londres não transferiu para Kadafi.
Deste modo, as despesas do império serão limitadas aos custos do bombardeamento, etc, os quais são de qualquer forma partilhados entre os seus membros. Se tudo correr bem, a administração Barack Obama, por exemplo, pode mesmo conseguir evitar ter de pedir um [orçamento] suplementar a curto prazo [isto é, se os altamente suspeitos líderes rebeldes não embolsarem grande parte do dinheiro para si próprios, deixando de pagar seus empregados, como tem acontecido muitas vezes em casos como este). Uma esplêndida pequena guerra perfeita para a era da austeridade.
Mas por agora o membro do império que está a obter mais com esta guerra provavelmente não é a elite do poder dos Estados Unidos mas sim a classe dominante dos estados do Golfo. A Líbia é ouro imediato para eles: fazer a Líbia agrada o ocidente; mas o mais importante é que ajuda a desviar a atenção da sua repressão conjunta de intifadas internas, especialmente aquela grande no Bahrain . E acima de tudo, alguns deles aparentemente estão em posição de ganhar algum dinheiro. “Rebeldes dizem que o Qatar está pronto para comerciar petróleo do Leste da Líbia” , segundo a Reuters. Doce petróleo em retorno da propaganda de guerra da Al Jazeera e da participação do próprio Qatar na guerra. Não há melhor negócio do que o negócio da guerra.
Que os rebeldes líbios amam o império e vice-versa já é bem claro. É assim que Nicholas D. Kristof descreve quando os rebeldes líbios amam os americanos por bombardearem o seu próprio país.
Isto pode ser sem precedentes no mundo árabe: um piloto americano caído de paraquedas sobre a Líbia foi resgatado do seu esconderijo num curral de ovelhas por aldeões que o abraçaram, serviram-lhe refresco e agradeceram-lhe efusivamente por bombardear o seu país.
Apesar de alguns aldeões terem sido atingidos por estilhaços americanos, um deles disse entusiasticamente a um repórter que não guardava rancor. No mesmo momento, na quarta-feira em Bengazi, a principal cidade da Líbia oriental em cujas ruas quase certamente agora estaria a correr sangue se não fosse a intervenção liderada pelos EUA, residentes organizaram um “comício de agradecimento”.
O que permanece misterioso é porque tanta gente de esquerda, árabes e iranianos , leigos ou religiosos , reformistas ou revolucionários, no ocidente ou no eixo de resistência caíram profunda e cegamente em amor pelos rebeldes líbios. Não importa quanto amem os rebeldes (que permanecem “revolucionários” aos olhos dos escravos do amor), não há sombra de evidência de que os rebeldes os amem ou de que eles correspondam . Não houve de facto nem mesmo um mínimo indício de namoro nessa direção. Sem dúvida, o casamento dos rebeldes líbios com o império pode finalmente acabar num amargo divórcio, mas, se o Afeganistão e outros precedentes correspondem a alguma indicação, tal divórcio é improvável que leve a um caso de ressurgimento com qualquer coisa remotamente do interesse dos amantes não correspondidos dos rebeldes líbios.
Nos últimos dias, contudo, tenho notado que a máquina de propaganda da República Islâmica do Irã começou a mudar de direção em relação à Líbia. Talvez o establishment iraniano tenha finalmente percebido que os rebeldes líbios não são pró iranianos. Em contraste, os de esquerda e o Hezbollah, talvez mais abnegadamente idealistas do que responsáveis iranianos, ainda têm de perguntar aquela questão crucial da solidariedade internacional, a qual ao contrário da caridade é sempre uma rua de duas mãos: Estão os rebeldes por nós ou contra nós?

Comentários

  1. yizucrap Postado em 21/Apr/2011 às 20:02

    Thank you for sharing the info. I found the details very helpful.

    paxil