Luis Soares
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Política 03/Dec/2010 às 01:16
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Terra do Nunca

Às vezes, ou melhor, normalmente o mundo do faz-de-conta é o alento que permite que se siga em frente. Enganando a si mesmo e aos outros, o ser humano vai pautando sua vida preparando para o futuro um sistema de sobrevivência calcado em desigualdades que poderiam ter sido evitadas. O mundo de igualdade plena é mera utopia; entretanto, uma sociedade que administre racionalmente as distorções terá que ser a meta de todos os que sonham com os pés no chão e vislumbram uma coexistência possível, realista.

Não é fácil uma transição do sonho para a realidade, mas não é tão complicado se dispor a encarar a verdade. Enxergando o que é ou não fantasia, se alivia a consciência do remorso por ter que ir levando as coisas no “banho maria”. É importantíssimo, portanto, para a saúde mental e espiritual saber onde se pisa, até onde se está ou não fazendo os outros de palhaço. Quem vê pelo menos um pouquinho mais à frente não pode embarcar na empolgação da imprensa na cobertura do que está acontecendo no Rio de Janeiro com o confronto entre Estado e traficantes. O fato é que, na melhor das hipóteses, 75% da polícia carioca é comprometida com bicheiros e traficantes de drogas e armas. Não dá para esconder que grande parte dos moradores das favelas agora “libertadas” dos criminosos sente saudade dos mesmos, que lhes davam o que os poderes públicos não proporcionavam.

A depuração da polícia acompanha a da sociedade como um todo. O processo é lento e quase interminável. As ações empreendidas neste momento são eivadas de imperfeições porque não é produtivo combater o crime utilizando agentes criminosos. Se não se parar após o fogo da euforia, as gerações vindouras terão como colher bons frutos. Toda essa mobilização emergencial é valiosa como é o Bolsa Família no tocante à questão social. Tem que haver a “porta de saída”. Tudo fica mais complexo devido a não se legitimar o jogo aberto, a transparência nas análises e nas proposições.

Quem tem medo de uma CPI do carnaval e do futebol? Por que os órgãos de comunicação, principalmente os que lucram bastante com a divulgação dos festejos carnavalescos, não se empenham em investigar a fonte de investimentos de um evento turístico de tão alta repercussão? Quais os motivos de não se ir à fundo nos bastidores administrativos do futebol brasileiro?

Enquanto barreiras “enigmáticas” não são quebradas, cabe a indagação: Será que o Brasil conviveria melhor com suas deturpações se tivesse sido imaginado por Michael Jackson? A nossa Terra do Nunca, lamentavelmente ou não, foi e é sonhada por Reginaldo Rossi, Roberto Carlos, Caetano Veloso e outros.

Luis Soares, em Pragmatismo Politico

Comentários

  1. Anonymous Postado em 03/Dec/2010 às 08:03

    Não me parece que 'saudades' dos traficantes seja a opinião constatada até agora. Embora essa teoria seja criada em muitas áreas acadêmicas, acho isto uma falácia. O tráfico impõe a sua benevolência pelo poder do medo. Também acho que o Estado foi omisso e se ausentou e que isto criou as condições para a situação de refém dessa população.

  2. Dirceu Barquette Postado em 03/Dec/2010 às 09:30

    Creio que ainda temos muito por ver no nosso Brasil do nunca. A movimentação está acontecendo e por si só promove mudanças. As críticas são necessárias para aparar as arestas e coibir os abusos. Dizem os orientais: "siga o caminho do meio".

  3. Luis Soares Postado em 03/Dec/2010 às 11:56

    Quando você é mãe ou pai, pobre, morador de favela, excluído da sociedade e tem um filho doente necessitando de medicação com certa urgência, não pensa duas vezes: sobe o morro e vai no movimento recorrer ao tráfico. Em dois tempos, um avião do tráfico deixa o remédio na porta da sua casa. Olha, o termo 'saudade' é meramente casual e se aplica a exemplos desta magnitude, que existem aos montes.

    Não corroboro com esse sistema, mas é preciso enxergar as diferenças de perspectiva entre o cidadão desestimado, escanteado pelo Estado, e o privilegiado; sobretudo no concernente às necessidades básicas do ser humano.

    Ao ampliar as ações de assistência aos setores mais miseráveis, o governo diminui a dependência do morador da comunidade para com o traficante. É o Estado deixando de praticar a omissão localizada e exercendo a função que verdadeiramente lhe cabe.

  4. ANELISE Postado em 04/Dec/2010 às 13:51

    Luis,75% é muito alto.Isso é chutometro ou vc tem algum dado estatístico?

  5. Luis Soares Postado em 04/Dec/2010 às 19:52

    Os não tão jovens irão se lembrar do escândalo da polícia com os bicheiros no Rio de Janeiro, onde foi comprovado o envolvimento de praticamente 80% da alta patente da polícia com o crime organizado. De la pra cá, o índice melhorou?

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