Luis Soares
Colunista
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Política 01/Dec/2010 às 20:57
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Pobre do povo que precisa de milícia

Se para nós, os privilegiados do asfalto, o cotidiano no Rio de Janeiro já é um salve-se quem puder em meio a arrastões, balas perdidas, seqüestros-relâmpago e similares, fico imaginando o que deve ser a vida das pessoas humildes que estão onde a polícia e a saúde não chegam.

Semana passada, depois de ser agredida pelo ex-namorado, que entrou em sua casa, quebrou o que quis e bateu nela, minha amiga Neusa, que vive numa comunidade na zona Oeste do Rio, teve uma alta de pressão e precisou correr para o hospital.

Com a ajuda das vizinhas, teve que pegar condução e correr ao bairro ao lado, porque o antigo hospital que havia próximo à sua comunidade foi fechado meses atrás, por falta de higiene e pela má condição do prédio. E, segundo ela, não parece que vai voltar à ativa tão cedo.

Depois de ser atendida de emergência e amargar uma transferência para outro hospital, dentro de uma ambulância que levava não um paciente, mas oito, espremidos em volta da maca na qual uma velhinha teve a sorte de se deitar, Neusa passou quatro dias internada sofrendo o medo de voltar para casa, porque onde mora não existe delegacia, polícia ou guarda municipal.

E se o ex-namorado aparecer?

Quando finalmente voltou ao lar, amparada pela vizinhança, soube que um dos moradores havia pedido ajuda aos seguranças da área, também conhecidos como “milicianos”, e recebeu a notícia de que estão de olho na casa dela. Mesmo sabendo que alguns destes “seguranças” são ex-policiais expulsos da corporação por terem cometido crimes, Neusa afirma que os moradores recorrem a eles como, no passado, recorriam aos traficantes.

— Estuprador eles matam. Ladrão, eles cortam os pés, as mãos e tacam fogo no corpo. Marido que bate em mulher leva uma surra, se fizer de novo é expulso de lá. Ou morre.

Apesar de espalharem o medo, tais “seguranças” acabam ganhando a simpatia dos moradores, numa inversão de valores e de papéis que faz das comunidades um mundo à parte deste em que vivemos.

— Eles não andam com arma mas não deixam entrar ladrão nem viciado na comunidade. O mercado foi assaltado e eles chegaram antes da polícia e conseguiram pegar os ladrões. Ouvi quando um gritou “dá a última forma!”, que quer dizer pra matar, mas aí avisaram que a polícia já vinha chegando. Eles entregaram os caras para os policiais.

Depois de viver numa outra comunidade, de onde fugiu após ser violentada a noite inteira por milicianos, que também se apossaram de sua casa, Neusa conta que lamenta a inexistência de uma Delegacia da Mulher em sua área.

— Fui muito bem atendida na Delegacia da Mulher. Lembro que me ajudaram a entrar no carro, pra ir fazer o exame de corpo de delito. Tive até atendimento psicológico. Cheguei a fazer reconhecimento dos bandidos, mas não levei o processo adiante porque tive medo de represálias. Quem é que ia me defender se eles voltassem? Só se eu ficasse morando na delegacia!

Desta vez, ela não pensou em recorrer à polícia, porque, caso chegassem à sua casa, já não haveria flagrante, ou seja: nada poderia ser feito. O jeito, então, é correr para o outro lado.

— É uma pena, eu preferia ir à polícia, porque assim não precisaria pagar nada a ninguém. Porque lá, nada é de graça. A gente fica devendo, e se um dia eles pedirem pra eu pagar o favor, não vou poder dizer não. De um jeito ou de outro, perdi meu sossego.

Comentários

  1. Sandra Carvalho Postado em 02/Dec/2010 às 16:16

    É impossível fazer a distinção entre 'milícia' e 'bandidos' porque um é a definição do outro. Os 'milicianos' são apenas mais um grupo que deseja levar vantagem sobre a ausência ou presença deficiente do Estado em comunidades compostas por pessoas de baixa renda. 'O Estado não se interessa, as pessoas não se interessam, vamos lá levar o nosso.'

  2. Nassim Postado em 02/Dec/2010 às 16:19

    Os milicianos de ontem são os traficantes de hoje. Ah, o poder...

  3. dbacellar Postado em 02/Dec/2010 às 23:45

    Os milicianos são policiais militares ou ex-policiais militares, ou, ainda, pessoas que gostariam de ser policiais militares mas não conseguem por uma razão ou outra.

  4. dbacellar Postado em 02/Dec/2010 às 23:51

    Hoje, as pessoas humildes da Vila Cruzeiro e das favelas do complexo do Alemão estão sendo roubadas, humilhadas, tendo suas casas revistadas sem mandados judiciais e tendo dificuldades para circular. Ou seja, seus direitos CIVIS estão sendo diariamente desreipetados (e não apenas os tão já tão decantados direitos humanos). Isso tudo com a chancela do governador 'bonzinho' Cabral ,o mesmo das UPPs (estas, sim, um trabalho na direção correta), apenas para mostrar que ele não é 'frouxo'. Ridículo. Mais uma para o folclore do Rio. Estas favelas vão acabar sendo as últimas a entrar para o programa das UPPs de verdade, considerando a desilusão que estas pessoas vão (e estão) sofrendo. Cabral conseguiu arruinar, pelo menos parcialmente, o trabalho sério que vinha fazendo.