Luis Soares
Colunista
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Política 16/Nov/2010 às 15:58
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Saramago faria 88 anos hoje; filme mostra parte de sua intimidade

O escritor José Saramago – único prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa – completaria nesta terça-feira 88 anos, senão tivesse falecido em junho passado. Para marcar a data, estreia no circuito comercial o documentário José & Pilar, que conta a história do escritor e de sua esposa, a jornalista Pilar Del Rio, e tem produção de Fernando Meirelles.
O filme, que é uma homenagem do diretor Miguel Gonçalves Mendes ao autor, já foi exibido no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Fala do cotidiano do casal nos últimos três anos de vida de Saramago. Para embalar o romance na produção, nada como a música de Adriana Calcanhoto, que faz parte da trilha musical.

Nascido em 16 de novembro de 1922, Saramago começou a escrever cedo, mas só depois é que enveredou para a literatura. Seu primeiro livro foi escrito em 1947, Terra do pecado. Começava ali a sua trajetória literária. Vieram então Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, que virou até filme nas mãos de Fernando Meirelles, Ensaio sobre a Lucidez, A viagem do elefante e Caim.

José Saramago faleceu no dia 18 de junho deste ano, aos 87 anos de idade. Ele não resistiu à leucemia, que o derrotou, fazendo com que deixasse incompleta a obra Alabardas, alabardas! Espingardas, espingardas!.

Veja abaixo texto de Luiz Zanin, publicado em O Estado de S. Paulo:

O tocante documentário de Saramago e sua musa pilar

Por Luiz Zanin Oricchio

José & Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, é desses raros filmes que descortinam uma intimidade sem serem invasivos. É, de fato, com delicadeza que o diretor acompanha longamente o cotidiano de um casal famoso, formado pelo escritor José Saramago e a jornalista Pilar del Rio.

O cineasta registra o cotidiano do casal em sua casa em Lanzarote e em suas viagens ao exterior. Segue de perto a criação do último romance do Prêmio Nobel português, A Viagem do Elefante e os deslocamentos do escritor na promoção do livro, com passagem inclusive pelo Brasil.

Aliás, os pontos de contato de Saramago com o Brasil são bem destacados – de sua amizade com Sebastião Salgado e Chico Buarque à colaboração com Fernando Meirelles, que adaptou para a tela seu romance Ensaio Sobre a Cegueira. Algumas das últimas imagens do filme o registram em sua passagem pelo Rio e São Paulo, sempre em companhia de Pilar.

José & Pilar é um documentário tocante – e isso porque vai além do mero empilhamento de fatos e imagens. Claro, os fãs de Saramago ficarão contentes em conhecer a casa em que ele escrevia em sua ilha espanhola. Gostarão de acompanhá-lo de volta à sua cidadezinha natal, Azinhaga, onde chega coberto de glória.

Vão rir ao ver que o austero escritor abre seu computador, não para começar um dos elaborados parágrafos de sua prosa, mas para disputar consigo mesmo um prosaico jogo de paciência. Mas o filme não tem o título de José e Pilar por acaso – ele fala de um casal. E, se Saramago é o mais famoso, Pilar não fica atrás como figura forte.

Muito mais jovem que o marido (Saramago a conheceu quando já tinha mais de 60 anos), Pilar faz muito mais de organizar a agenda do marido e facilitar-lhe a vida prática – para a qual, como muitos homens de arte, ele parecia não ter a menor vocação.

Era ela quem lhe dava uma, vamos dizer assim, consistência existencial. Uma certa segurança de que não estava só no mundo, sensação muito comum entre escritores, talvez uma doença profissional desse trabalho ensimesmado. Essa reciprocidade e esse afeto transparecem nas imagens e nas falas dos personagens. Aparecem nos gestos, às vezes até mais do que nas palavras.

Muito da riqueza do filme se deve à sensibilidade de Miguel Gonçalves Mendes em captar esse subtexto de um relacionamento muito especial. Ao conhecer os dois, ele deve ter percebido muito bem que seria um equívoco centrar seu filme em Saramago e deixar Pilar em segundo plano, como pano de fundo da vida de um grande escritor. Como mulher forte, ela teria de estar ao lado do marido – mesmo porque professa um feminismo militante que não lhe permitiria jamais ocupar posição subalterna.

 Vermelho & Agências

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