Redação Pragmatismo
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Violência 25/Nov/2010 às 21:44
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Marcelo Freixo: segurança pública reforça criminalização da pobreza

Comentário do blog: A única divergência deste blog diz respeito à opinião do deputado sobre as UPP’s. As Unidades de Polícia Pacificadora têm diminuido a ostentação de armas e poder dos traficantes, além de serem bem aceitas, a princípio, pelos moradores. O primeiro passo é a retirada da ocupação territorial do tráfico. Em seguida, a ‘pacificação’ poderá ajudar, e muito, na provisão de recursos como hospitais, escolas, etc.  De todo modo, a crítica do Freixo serve de atenção para os próximos passos nas instalações de novas UPPs.
Em entrevista a Terra Magazine, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), conhecido pelo combate às milícias afirma que a ação da polícia carioca nas favelas reforça “a criminalização da pobreza” e não enfrenta o crime organizado. Ele será enfrentado, diz Freixo, “onde há o lucro (com a ilegalidade), que não é na favela“.
– A favela é a mão de obra barata. É a barbárie – diz o deputado, elencando a Baia da Guanabara e o Porto como locais onde há o tráfico de armas e onde lucra o crime organizado.
Freixo foi presidente da CPI das Milícias, que investiga a ligação de parlamentares com grupos paramilitares. Por conta disto, o deputado chegou a ser ameaçado de morte. Leia abaixo a íntegra da entrevista:
O senhor é conhecido pelo combate às milícias. Em alguma medida, esses ataques podem interferir no comportamento delas?
Marcelo Freixo – Esses ataques não tem nada a ver com milícias, são reações às UPPs, que não atingiram as milícias em nada. Não há nenhuma área atingida pelas milícias que tenham sido ocupadas pelas UPPs. Pelo contrário.
Sobre esses ataques…
Esses ataques são do varejo da droga, que é muito menos organizado do que se imagina. Representam o crime da lógica da barbárie, da violência. Não são pessoas que têm referência com o crime organizado, porque a organização não faz parte de sua cultura de vida. É a barbárie pela barbárie. Então, os ataques não vêm do crime organizado, que deve ser enfrentado de uma outra forma.
Que forma?
Se quiser enfrentar o crime organizado tem que ir para a Baia da Guanabara que é por onde as armas entram. Aí, sim. Ali tem a operação financeira do crime organizado para o tráfico de armas. Isso não se enfrenta no Rio de Janeiro.
O senhor afirma que se trataram de atos bárbaros, sem uma organização. Mas esses ataques estavam sendo comandados pelo Comando Vermelho e pelo Amigo dos Amigos.
São facções da barbárie. É o crime organizado dentro das cadeias. São grupos que só são organizados de dentro das cadeias. Muito mais dentro do que fora. O crime organizado é onde tem dinheiro e poder, que não é o caso das favelas, onde fica a pobreza e a violência. A tradicional política de segurança do Rio, perpetuada há 11 anos, enfrenta as favelas com uma ação letal. Em 2007, o mesmo governo (Sérgio) Cabral entrou no Complexo do Alemão, matou 19 e saiu. Como está o Complexo do Alemão hoje? Igual. Esse tipo de ação é muito ineficaz. Se é para enfrentar o crime organizado, tem que ser onde ele lucra, que não é na favela. A favela é a mão de obra barata, e é a barbárie. É preciso ir à fonte do financiamento e aonde passam as armas. Essa é a escolha política que até hoje o governo Lula não fez.
Como o senhor avalia a implementação das UPPs?
As UPPs representam um projeto de cidade e não de segurança pública. O mapa das UPPs é muito revelador: é o corredor da Zona Sul, os arredores do Maracanã, a zona portuária e Jacarepaguá, região de grande investimento imobiliário. Então, são áreas de muito interesses para o investidor privado. O Estado, portanto, retoma – militarmente – este território. A retomada é militar para permitir um projeto de cidade, que é a cidade Olímpica de 2016. Para toda cidade Olímpica tem cidades não-Olímpicas ao redor.
Dentro desse cenário que o senhor chama de “barbárie”, e somando a ele esses ataques recentes, o senhor acredita que fica de ônus ao morador da favela?
Esses momentos reforçam o processo de criminalização da pobreza no Rio, o que é muito perigoso. Hoje, todas as operações policiais no Rio acontecem nas favelas. Todas. Não há nenhuma na Baia da Guanabara, nem no Porto, que é por onde entram as armas e onde funciona – verdadeiramente – o crime organizado. Então, reforça-se esse processo de criminalização das áreas pobres.
Terra Maganize

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Comentários

  1. Guilherme Scalzilli Postado em 29/Nov/2010 às 10:01

    Propaganda de guerra

    Quem são os vilões nos combates cariocas? A imprensa corporativa simplifica-os no coletivo “traficantes”, suscitando mistificações embaraçosas. Vemos apreensões de sacos de maconha, pacotes de cocaína e até vidros de lança-perfume, o antiqüíssimo “loló”, como se pudessem, agora sim, desfalcar o imenso poder dos caubóis malvados.
    Quantos quilos de maconha são necessários para pagar um fuzil de última geração? Quantos alqueires de plantações de fumo dariam troco suficiente para financiar os arsenais e exércitos que enfrentam as forças públicas nas favelas? Quantos milhões de papelotes de pó deveriam ser vendidos, em boa cotação, para erguer fortalezas luxuosas? Alguém já fez essa conta?
    Se os “traficantes” dominam o crime organizado, onde estão os assaltantes de banco, os seqüestradores, os ladrões de carga, os contrabandistas, os falsificadores, os proxenetas, as quadrilhas de jogo ilegal, os exploradores de pedofilia, etc? Ah, entendi, eles não são estruturados nem equipados, tampouco dispõem de recursos ou armamento. E, claro, o empreendimento criminoso caracteriza-se pela ética da especialização: quem vende “tóchico” não se permite roubar.
    Por natureza, uma ação de combate dessa envergadura é permeável a todo tipo de sensacionalismo. Pode-se até discutir o caráter nocivo do discurso “mata e arrebenta” propagado pelo noticiário televisivo. Mas a insistência numa associação demagógica e irreal entre o banditismo e a droga não surgiu apenas de exigências didáticas. Há muito da ideologia retrógrada do filme “Tropa de Elite” nessa propaganda. Justamente quando a sociedade poderia questionar a estupidez proibicionista, a mídia contribui para sua apologia.

    http://www.guilherme.scalzilli.nom.br/

  2. j-claudio1 Postado em 19/Jun/2011 às 11:00

    Trabalho no antigo BEP(UP/PMERJ), vinculado agora à CORREGEDORIA da PMERJ, Diretor(Ten Cel Wolnei Dias), sub dir(Maj Carmo). Gostaria que fossem questionados sobre a verba de R$30.000,00, destinada à investimentos para cada unidade da PMERJ, onde estão investindo, se estão devolvendo o que não está sendo usado, o 'fraldário' foi desativado pelo Diretor a mais de um ano, não cumprindo sua função(ressocialização), deveríamos receber R$500,00 por fazermos parte da corregedoria, mas, a escala (unidade sem atividade 'fim') 24x72, o P/1(Cap CONSTÂNCIO)'ganha para deixar que alguns pms, ex.:2ºsgt MUGUET, que trabalha praticamente todos os dias, o que já seria irregular para o serviço policial militar 24x48 (escala de DPO). O serviço já é duas vezes estressante (serviço de pm e de carcereiro). "VAMOS HUMANIZAR A POLÍCIA MILITAR", em pleno século XXI, ainda temos que provar que somos inocentes presos. Sendo que até para prender um bandido, temos que ter provas.