Luis Soares
Colunista
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Política 25/Nov/2010 às 14:58
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A batalha do Rio

Do blog Esquerdopata
 
É um engano identificar a batalha do Rio – e de outras grandes cidades – como mero confronto entre a polícia e delinquentes, traficantes, ou não. Embora a conclusão possa chocar os bons sentimentos burgueses, e excitar a ira conservadora, é melhor entender os arrastões, a queima de veículos, os ataques a tiros contra alvos policiais, como atos de insurreição social. Durante a rebelião de São Paulo, o governador em exercício, Cláudio Lembo, considerado um político conservador, mais do que tocar na ferida, cravou-lhe o dedo, ao recomendar à elite branca que abrisse a bolsa e se desfizesse dos anéis.
O Brasil é dos países mais desiguais do mundo. Estamos cansados do diagnóstico estatístico, das análises acadêmicas e dos discursos demagógicos. Grande parcela das camadas dirigentes da sociedade não parece interessada em resolver o problema, ou seja, em trocar o egoísmo e o preconceito contra os pobres, pela prosperidade nacional, pela paz, em casa e nas ruas. Não conseguimos, até hoje (embora, do ponto de vista da lei, tenhamos avançado um pouco, nos últimos decênios) reconhecer a dignidade de todos os brasileiros, e promover a integração social dos marginalizados.
Os atuais estudiosos da Escola de Frankfurt propõem outra motivação para a revolução: o reconhecimento social. Enfim, trata-se da aceitação do direito de todos participarem da sociedade econômica e cultural de nosso tempo. O livro de Axel Honneth, atual dirigente daquele grupo (A luta pelo reconhecimento. Para uma gramática moral do conflito social) tem o mérito de se concentrar sobre o maior problema ético da sociedade contemporânea, o do reconhecimento de qualquer ser humano como cidadão.
A tese não é nova, mas atualíssima. Santo Tomás de Aquino foi radical, ao afirmar que, sem o mínimo de bens materiais, os homens estão dispensados do exercício da virtude. Quem já passou fome sabe que o mais terrível dessa situação é o sentimento de raiva, de impotência, da indignidade de não conseguir prover com seus braços o alimento do próprio corpo. Quem não come, não faz parte da comunidade da vida. E ainda “há outras fomes, e outros alimentos”, como dizia Drummond.
É o que ocorre com grande parte da população brasileira, sobretudo no Rio, em São Paulo, no Recife, em Salvador – enfim em todas as grandes metrópoles. Mesmo que comam, não se sentem integrados na sociedade nacional, falta-lhes “outro alimento”. Os ricos e os integrantes da alta classe média, que os humilham, a bordo de seus automóveis e mansões, são vistos como estrangeiros, senhores de um território ocupado. Quando bandos cometem os crimes que conhecemos (e são realmente crimes contra todos), dizem com as labaredas que tremulam como flâmulas: “Ouçam e vejam, nós existimos”.
As autoridades policiais atuam como forças de repressão, e não sabem atuar de outra forma, apesar do emplastro das UPPs.
Na Europa, conforme os analistas, cresce a sensação de que quem controla o Estado e a sociedade não são os políticos nem os partidos, escolhidos pelo voto, mas, sim, o mercado. Em nosso tempo, quem diz “mercado”, diz bancos, diz banqueiros, que dominam tudo, das universidades à grande parte da mídia, das indústrias aos bailes funk. E quando fraudam seus balanços e “quebram”, o povo paga: na Irlanda, além das demissões em massa, haverá a redução de 10% nas pensões e no salário mínimo – entre outras medidas – para salvar o sistema.
A diferença entre o que ocorre no Rio e em Paris e Londres é que, lá, o comando das manifestações é compartido entre os trabalhadores e setores da classe média, bem informados e instruídos. Aqui, os incêndios de automóveis e os ataques à polícia são realizados pelos marginalizados de tudo, até mesmo do respeito à vida. À própria vida e à vida dos outros.
 
Por Mauro Santayana

Comentários

  1. Anonymous Postado em 25/Nov/2010 às 15:53

    Não me parece que os ataques que estão ocorrendo no Rio de Janeiro sejam uma expressão da revolta de setores que se sentem excluídos. Para mim, é uma reação de facções de traficantes à perda de território para o Estado. Uma revolta social implicaria numa ação profundamente mais ampla.

  2. As aventuras de Francesco Postado em 27/Nov/2010 às 14:13

    Talvez o passado escravocata tenha culpa. A alforria veio, mas as correntes das impossibilidades ficaram. Foram reduzidos aos morros e a corte continuou nos centros. Viraram caricaturas de seres sociais e uma das últimas coisas q têm a perder são os territórios e então eles irão lutar com o q têm por eles. Na margem, sempre estiveram e para a moral nem ligam já q há décadas não se teve moral alguma com eles..
    Educação pode resolver? Sim! Mas a longo prazo, é preciso ao menos 1 geração inteira. O exército é mais rápido agora para a urgência social, mas não conseguirá resolver.

  3. As aventuras de Francesco Postado em 27/Nov/2010 às 14:27

    Penso q o q poderia ser feito de efetivo para reverter isso já foi feito: introduzir educação e cidadania. Porém, o efeito da educação é lento. Compare-o às cólicas de bebês de menos de 3 meses. Leva-se meses para q o estomâgo reconheça q a alimentação mudou. Até lá, não há remédios eficientes, somente esperar. A educação resolve porém só dará resultados após, pelo menos, 2 gerações. O exército é só um paliativo nesse momento, do tipo fuchicória para aliviar cólicas em bebês.

  4. Anonymous Postado em 29/Nov/2010 às 17:33

    Quer melhorar de vida?Vai trabalhar!O Governo Lula gerou emprego e deu acesso a todos nas faculdades.Quem ta destruindo tudo sao os bandidos incorrigiveis mesmo.O povo honesto ta lutando e querendo viver em paz.Nao confunda a bandidagem com a populacao pobre e honesta.Bandido tem em qualquer classe social!Precisa e de uma justica imparcial que puna todos,do deputado ao pe de chinelo!

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