Luis Soares
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Política 02/Nov/2010 às 16:46
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“Até logo” de Serra irrita tucanos e desnuda maior crise do PSDB

Clima sombrio em redutos tucanos.
A declaração do candidato derrotado à Presidência da República, José Serra (PSDB) – que em discurso sobre o resultado de domingo (31) disse que não dava um “adeus”, mas um “até logo” – causou polêmica. Reservadamente, tucanos e aliados defendem uma renovação dos quadros da oposição nos próximos anos.  
Serra escancarou a maior crise da história do PSDB, que terá de trabalhar para evitar que novas divisões internas prejudiquem a candidatura do tucano que concorrerá à eleição em 2014. A ideia é criar consenso em torno de um novo candidato já em 2012, evitando especulação e desgaste político que interfira no processo de escolha.

Ao contrário do que aconteceu nas últimas três eleições presidenciais – em 2002, José Serra disputou a vaga com Tasso Jereissati; em 2006, a briga foi com Geraldo Alckmin (que ganhou a queda de braço); e este ano Aécio Neves foi a pedra no caminho –, a cúpula tucana quer trabalhar nos dois anos antes da eleição em torno de um único nome.

Para líderes do partido, os rachas internos podem contribuíram para a derrota de Serra na disputa com Dilma Rousseff no segundo turno. “Precisamos ter um desenho sobre nosso candidato já daqui a dois anos. Não podemos ficar refém dessa divisão interna”, avalia Sérgio Guerra, presidente do partido e coordenador nacional da campanha tucana.

Segundo Guerra, ao pôr Aécio de escanteio na disputa, o partido criou um clima de constrangimento que pode ter interferido negativamente. “Quando o Aécio desistiu da candidatura, eu estava lá e liguei imediatamente para o Serra e para o Fernando Henrique para dizer que eu tinha visto uma tristeza e um constrangimento muito forte do Aécio. Eu disse a eles: temos que trabalhar isso”, chegou a admitir Guerra.

Por tudo isso, a declaração de Serra em 31 de outubro, ao comentar a vitória de Dilma, piorou ainda mais a crise. Serra sinalizou que não sairá da vida pública e deu a entender que pretende voltar a disputar algum cargo eletivo. Houve repercussão negativa da declaração junto a aliados – que se incomodaram sobretudo com a frase “o povo não quis que fosse agora”, usada por ele para falar da derrota.

Nos bastidores, integrantes do PSDB avaliam que Serra foi personalista e não promoveu o que deveriam ser os novos passos do partido, no momento em que ele, Serra, sofre a segunda derrota na disputa pela Presidência da República. Há uma cobrança pela reconstrução do PSDB e a adoção imediata de uma bandeira para defender, como a reforma política, durante os quatro anos de administração Dilma.

Na visão desses tucanos, o posicionamento de Serra impede a criação de um canal de interlocução com a sociedade – elemento indispensável para melhorar a imagem do PSDB e da oposição. Os críticos de Serra questionam, ainda, qual espaço político será utilizado pelo candidato derrotado para ser um “militante produtivo”.

As forças em choque

O pano de fundo para o descontentamento interno de parte do PSDB é a luta interna por espaço político na legenda. Os principais protagonistas dessa disputa, cada vez menos, velada são os serristas e os entusiastas do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e de Aécio Neves.

Com musculatura política renovada, Alckmin tem pela frente uma nova geração de tucanos, além de colaboradores tradicionais, que defendem o seu nome como principal liderança no estado. Do lado mineiro, há descontentamento com a supremacia paulista na escolha dos presidenciáveis, além do entendimento de que São Paulo perdeu a vez com as duas derrotas de Serra e a de Alckmin, em 2006.

Para aliados de Serra, o discurso de domingo foi importante para mandar um sinal para o eleitor que o escolheu. “A realidade é que Serra tem mais de 40 anos de vida pública. Não tem motivo para abandonar isso, o que não significa, necessariamente, disputar um cargo eletivo”, afirmou o deputado Jutahy Junior (BA).

Um dos coordenadores da campanha de Serra, José Henrique Reis Lobo, avalia que, em seu discurso, Serra “assumiu a tarefa de ser uma das lideranças da oposição”. “Ele vai ser uma das grandes expressões e um oráculo das oposições, não só em estratégia, como em discurso”, afirmou Lobo.

Os aecistas

Tucanos serristas culpam Aécio pela derrota na eleição, já que o mineiro não conseguiu obter a vitória de Serra em seu estado, apesar de ter emplacado um “novato” em eleições – o seu ex-vice e agora governador Antonio Anastasia, que conseguiu se reeleger. No discurso de anteontem, Serra nem sequer citou Aécio.

No segundo turno, Dilma conquistou 58,45% dos votos de Minas – 1,7 milhões de votos a mais que Serra, que obteve 41,55% dos votos mineiros. Nos 27 dias de campanha entre o primeiro e o segundo turno, o ex-governador participou de apenas cinco eventos de apoio a Serra no estado.

Nesta segunda, Aécio negou todos os pedidos de entrevista. Seus aliados é que foram escalados para defendê-lo das insinuações de que ele não teria se empenhado pela vitória de Serra em Minas. Os tucanos mineiros alegam que a estratégia de viajar o país – adotada por Aécio no segundo turno – foi proposta do próprio Serra.

“O que vimos foi uma demonstração de coragem do Aécio e muito desprendimento. Ele poderia ter ficado quieto, mas faz o contrário e mostrou que é uma pessoa de partido”, defende o secretário-geral do PSDB e uma das pessoas mais próximas de Aécio, o deputado federal Rodrigo de Castro (PSDB-MG).

A tropa de choque de Aécio já atua para unir o partido em torno de seu nome como liderança natural a disputar as próximas eleições, em 2014. Para isso, os tucanos mineiros acreditam que é preciso promover uma grande reflexão no partido para torná-lo mais nacional – menção clara à hegemonia paulista que resultou no lançamento de três candidatos do estado à Presidência nos últimos anos.

Vermelho

Comentários

  1. Dirceu Barquette Postado em 02/Nov/2010 às 19:23

    A despeito dos recados , creio que uma palavra de esperança deveria ser dita aos 40 milhões de eleitores que no Serra acreditaram e principalmente aos patrocinadores que creditaram recursos para uma campanha de retorno incerto. E foi o que ele fez.

    A julgar pelo que se ouviu de seus partidários, Serra pautou sua campanha em diretrizes próprias ignorando as insatisfações. O detalhe é que demonstrou ter conseguido uma vitória obviamente referindo-se a São Paulo de onde certamente partirá seu exército de correligionários rumo a possível guerra fria que sucederá.

    Já do lado de Aécio, não devemos esperar o conformismo de uma desejada derrota. Creio que ele simplesmente percebeu os rumos e rumores de "seu" povo e claramente não quis queimar cartuchos diante do inevitável. Tenho certeza que tem muito mais que munição de festim.

    Seja de um lado ou de outro não custarão a fazer as pazes para dar início ao fogo cerrado contra o governo de Dilma. E olha que não falta quem apóie...

  2. Luis Soares Postado em 02/Nov/2010 às 19:43

    Essa briga em si não é nova. O fato "novo" é que não ocorreu o que se esperava de um lado: uma derrota massiva de Serra para deixar Aécio no primeiro plano, e portanto haver a possibilidade uma "reconstrução" do PSDB segundo a expressão do próprio Aécio - claro, reconstrução a partir de Minas.

  3. aristeu Postado em 03/Nov/2010 às 01:26

    Mais alguém acha significativo que, em toda essa discussão, o PSDB (que se coloca como A Oposição) não discuta pontos programáticos em torno dos quais se unir, mas sim nomes de politicos? Uma pena que eles nao estejam interessados em discutir e melhorar o pais, mas sim alcançar de novo a presidência.

  4. Luis Soares Postado em 03/Nov/2010 às 10:04

    O PSDB não consegue mais falar com a população desestimada, a mesma que elegia FHC e agora não vota em Serra ou em qualquer que seja o candidato tucano. Encabeçaram a pior oposição da história do Brasil e o resultado mais expressivo não é a derrota do presidenciável Serra, mas o debacle eleitoral dos seus principais caciques em redutos que antes eram intocáveis.

    A mera mudança de quadros na liderança do partido de nada valerá se não vier acompanhada de um processo responsável de autocrítica e, pelo que tenho lido, ninguém ainda se mostrou disposto a isto.