Luis Soares
Colunista
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Política 14/Sep/2010 às 20:58
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Eleitorado teflon, onde denúncias não colam

A mídia e a oposição neoliberal bem que gostariam, mas a eleiçãodeste ano não será uma repetição do que ocorreu em 2006, quando Luladisputou seu segundo mandato presidencial. Naquele ano, a apresentaçãona televisão de uma pilha de dinheiro conseguiu levar a disputa para osegundo turno. De acordo com aquela denúncia, era dinheiro que seriausado na compra de um dossiê contra o tucano José Serra, que eracandidato ao governo de São Paulo.

Mas seu êxito fugaz teve um resultado inusitado que já dava umaindicação da reação do eleitorado contra denúncias tão estapafúrdias.No segundo turno, Lula aumentou a votação dos 46,6 milhões do primeiroturno para 58,3 milhões: um aumento de 25%. E o tucano Geraldo Alckminamargou uma queda inédita, perdendo eleitores que o haviam escolhido navotação anterior: passou dos 39,9 milhões para 37,5 milhões, um recuode 7%.

Aquele episódio comporta uma lição que o elitismo e o conservadorismodos tucanos não registrou. A quinta eleição presidencial consecutivadesde a redemocratização revelou que algo havia mudado. Foram pleitosem que o eleitor fez sua longa experiência política pedagógica. ElegeuFernando Collor de Mello em 1989, e pouco depois saiu às ruas paraafastá-lo de um cargo mal exercido. Em 1994, elegeu Fernando HenriqueCardoso, que foi saudado nas ruas – quando candidato – por eleitoresque acenavam para ele com notas de um real. FHC atribuiu erradamenteaquele gesto à “modernidade” neoliberal que anunciava. Não era. Aquelasnotas eram flâmulas do desejo de mudança que o povo queria e esperavade um novo governo que, contrastando com o passado recente, tinha afama de “honesto”. Aquela onda seguiu até a reeleição tucana, em 1998,mas esvaiu-se e se transformou em frustração logo depois da aberturadas urnas, quando o presidente reeleito passou recibo de sua traiçãonacional e impôs um ajuste neoliberal ainda mais radical, que quebrou opaís, generalizou o desemprego e empobreceu os trabalhadores.

A eleição de Lula em 2002 representou a correção do rumo errático eperverso representado pelos tucanos. Significou a abertura de uma novaetapa na história republicana e também de um novo avanço na compreensãopolítica manifestada pelo povo.

Os tucanos ainda alimentavam a ilusão de que um mandato para Lula seriasuficiente, e eles voltariam em seguida. Mas as mudanças iniciadas em2003 representaram, para o conservadorismo neoliberal, a abertura daladeira rumo ao abismo. Toda a campanha contra o Lula e seu governo,que marcou os anos de 2005 e 2006, e que não refluiu ao longo dosegundo mandato, tentou ter o sentido de uma reação conservadora contraos novos rumos, democráticos e nacionalistas, que o país passou atrilhar. O tripé da propaganda da direita foi a crença na eficácia dasdenúncias, na credulidade do eleitor e no impacto de suas denúncias.

Foi um engano cuja profundidade é revelada pelas pesquisas. Em 2010 háuma “onda Dilma” e uma “onda vermelha” que poderão resolver a sucessãode Lula já no primeiro turno e, além disso, renovar em profundidade oCongresso Nacional, levando a ele uma maioria de deputados federais esenadores comprometidos com o programa de mudanças que vem sendoaplicado desde 2003.

Os tucanos cometeram o erro fatal de acreditar que o eleitorado,passadas todas aquelas experiências, não mudou. Ele mudou, como apontaClésio Andrade, presidente Confederação Nacional dos Transportes (CNT).O eleitor não aceita mais denúncias inconsistentes. “A sociedadebrasileira evoluiu muito e as pessoas hoje têm muita cautela com asdenúncias”, diz ele. Por isso, acusações inconsistentes aumentam arejeição dos candidatos que usam esse tipo de recurso enganador em suascampanhas.

O retrato da nova situação pode ser visto no desempenho de Serra eDilma. Enquanto Serra amarga uma rejeição de 41%, Dilma está no patamarnormal de 29%, um resultado que decorre da forma como ambos oscandidatos conduzem suas campanhas, sugere Clésio Andrade.Os ataquesfeitos pelo candidato da oposição, José Serra, sem dúvida aumentam suarejeição “por não serem considerados consistentes e verdadeiros” peloseleitores, disse.

A eleição deste ano vai confirmar e aprofundar o rumo das mudanças quevenceu em 2002 e foi reafirmado em 2006. Na mídia, o presidente Lula jáfoi apelidado de “presidente teflon” em quem nada colava, referindo-seàs campanhas caluniosas dos últimos oito anos. Com a eleição atual amídia terá que se confrontar com o “eleitor teflon”, refratário àsmentiras dos candidatos da direita.

Editorial Vermelho

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