Luis Soares
Colunista
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Política 01/Sep/2010 às 16:12
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Detalhes da História de Dilma

Está sendo largamente difundida pela Internet, por e-mail e outros meios, um vídeo sobre a participação da candidata Dilma Rousseff na resistência armada à ditadura militar. É uma peça que baixa bem o nível da campanha, um panfleto virtual repleto de inverdades e agressões.
 
O autor da peripécia aparece no VT com o nome de Olavo de Carvalho e se apresenta como “jornalista, intelectual e filosofo”. Com tantos predicados, o sujeito não tem grandes pendões para o rigor histórico, que, além de representar a verdade, encaixa os fatos em sua época.

Ele pergunta, por exemplo, onde estariam os U$ 2,5 milhões retirados pela VAR-Palamares, comanda por Dilma e Lamarca, da casa de Ana Capiglioni, em 18 de junho de 1969. Mas se esquece que meses depois Dilma foi presa e Lamarca morto pelas forças da repressão, que confiscaram tudo o que eles poderiam ter acesso. Essa gente é que teria o que explicar.

Vamos a fatos. Na década de 1960, Dilma teve intensa atividade política, inclusive na esquerda clandestina, revolucionária, que pegou em armas contra a ditadura militar. Foi protagonista de alguns dos mais espetaculares episódios da guerrilha urbana até de 16 de janeiro de 1970, quando foi presa e cruelmente torturada por três anos.

Filha e imigrantes búlgaros, integrados à classe média de Minas Gerais, Dilma teve uma infância normal para essa faixa social. Acesso fácil à escola, brinquedos e livros. Entre seus amigos de rua havia um menino chamado Carlos Alberto Libânio Christo, que vem a ser o Frei Betto e seguiu trajetória semelhante à dela, por outras rotas. Mas, por coincidência, foram hóspedes forçados do mesmo presídio Tiradentes, em São Paulo, num mesmo período.

Na militância política desde cedo, casou-se precocemente também, aos 16 anos. O primeiro marido foi Cláudio Galeno de Magalhães Linhares que, como ela, militava no grupo Política Operária (Polop), criado no início da década de 60 (antes do golpe de 64) por dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Partidários da luta armada, os dois ingressaram no Comando de Libertação Nacional (Colina), grupamento cuja presença mais forte era em Minas. Além de egressos da Polop, o Colina tinha ex-membros do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), derivado dos “Grupos dos Onze Companheiros” e capitaneados por Leonel Brizola, o ex-governador do Rio Grande do Sul, à época exilado no exterior.

Em abril de 69, Dilma passou a fazer parte do comando nacional da organização. A essa altura, já estava em curso a fusão do Colina com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo liderado pelo capitão Carlos Lamarca. Surgia a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), que teve curta duração, mas muita ação.

Ainda antes da fusão, Dilma participou do plano de fuga de Lamarca, que, ao desertar do Exercito, deixou solenemente o quartel, em área central de São Paulo, em uma Kombi repleta de armas. Além de assaltar bancos para granjear dinheiro, as duas organizações atacavam instalações militares, para conseguir armas e munições. Eram ações mais ousadas e mais especializadas.

A grande (e única) ação da VAR-Palmares foi justamente o famoso assalto à casa da milionária Ana Capiglione, no bairro de Santa Tereza, Rio de Janeiro, em 18 de junho de 69. Ela era amante e tida como o caixa 2 de Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo.

Um sobrinho dela, Gustavo Buarque Schiller, de codinome “Bicho”, era militante da VPR e sabia que ela guardava muito dinheiro em casa, a maior parte em dólares. Ele fez os mapas de acesso à mansão, descreveu ambientes e funcionários.

A ação foi meticulosa e ousada. Cinematográfica até. No planejamento, Dilma era a principal figura. Treze pessoas prenderam os funcionários e retiraram o cofre pela janela do segundo piso. Colocado numa caminhonete, foi levado para um sítio. Aberto com maçaricos, aparece a exuberante quantia de 2,5 milhões de dólares.

Era dinheiro que a guerrilha jamais havia imaginado. Meses depois, a VAR-Palmares foi desfeita e Dilma continuou no Colina até ser presa. Vale lembrar que as organizações da esquerda urbana tinham ligações entre elas. Sabiam de boa parte das atividades e se ajudavam financeiramente, em especial em ações para esconder militantes ou enviá-los para o exterior.

A maneira de controlar o dinheiro variava um pouco, mas de um modo geral cada organização tinha uma comissão de finanças. Essa liberava verbas para a manutenção dos militantes, das estruturas de apoio e das ações executadas. Exceção foi a Guerrilha do Araguaia, em que o controle das finanças era do Comitê Central do PCdoB.

Nesse intervalo, ela havia se separado de Cláudio e passado a viver com outro guerrilheiro, o gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, com quem ficou casada por 30 anos e teve sua única filha. Quando saiu da prisão, em 74, seu destino foi o Rio Grande do Sul. A guerrilha já havia sido debelada e ela aderiu à luta pela Anistia e pela redemocratização do País.

Sem um tostão na bolsa.

Jaime Sautchuk

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