Luis Soares
Colunista
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Política 19/Aug/2010 às 20:49
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O padrão Olga Curado

Desde que o Brasil voltou a eleger presidentes, em 1989, fala-se dos“magos” da propaganda política. Agora, a disputa que pode eleger aprimeira presidente também poderá ser a primeira vez a se falar de uma“maga”. Se Dilma Rousseff for eleita, uma figura dos bastidores dacampanha petista, a jornalista goiana Olga Curado, ganhará osholofotes. A menos de dois meses da eleição, a especialista em mediatraining tem diante de si a tarefa de transformar a ex-ministra,estreante em eleições, numa estrela televisiva. Ou ao menos impedi-lade tropeçar no script.
Nada de frases longas, nada de tecnicismos, nenhum destempero. Dilmanão pode errar na tevê. Depende de seu desempenho na telinha amanutenção, no mínimo, e até a ampliação, da vantagem que tem emrelação a José Serra, do PSDB. Desse desempenho, há quem diga,dependerá a duração da campanha: se em um ou dois turnos.
Na primeira prova, Olga falhou: uma Dilma Rousseff nervosíssimaapareceu no primeiro debate entre os presidenciá-veis, exibido pela TVBandeirantes na quinta-feira 5. Mas acertou na segunda: a candidataapareceu tranquila na bancada do Jornal Nacional na terça-feira 10 esoube safar-se bem das investidas do apresentador William Bonner.
Bonner, que ganhou na internet o apelido de Pit Bonner por suaatuação com as mulheres candidatas, Dilma e Marina Silva, do PV, não secomportaria assim na última da série de entrevistas de 10 minutospromovida pelo JN com os candidatos à Presidência. Ao contrário dassenhoras, que tiveram de interromper Bonner para falar, a entrevistacom Serra foi marcada por gentilezas, “me perdoe, candidato” para lá,“boa pergunta” para cá, o que estimulou muitas piadas no Twitter.
 
Talvez o apresentador global precise agendar um workshop com OlgaCurado, porque o que ela está fazendo com Dilma é justamente ensiná-laa não perder as estribeiras. Jornalista formada pela UFG, oriunda detradicional família goiana, Curado foi diretora da Globo durante 14anos. Foi ela quem implantou o tal “padrão Globo de qualidade”- nas 96emissoras afiliadas País afora. Saiu de lá em 2000 para montar suaconsultoria, a Curado e Associados, com sede em São Paulo, descrita emseu site como uma empresa que atua na “construção de imagem”.
Às voltas com a campanha da petista, a jornalista não quer darentrevistas. E, obviamente, os políticos que se submeteram à suaassessoria – e aos honorários de 8 mil reais por hora – tampouco gostamde reconhecer que precisaram de sua ajuda. Sabe-se que foram clientesdela os ex-ministros Márcio Thomaz Bastos, José Dirceu e Luiz Gushiken,o ex-governador do Maranhão Jackson Lago, empresas como a TAM einúmeros advogados. O próprio Lula recorreu a Curado para enfrentar ocandidato Geraldo Alck-min no último debate da TV Globo durante osegundo turno de 2006.
“O que posso dizer é que o media training da Olga tem salvado areputação de pessoas importantes na República”, afirma o jornalistaEtevaldo Dias, que foi secretário de imprensa de Fernando Collor noestertor dos últimos 55 dias de governo e hoje atua num lucrativo ramodos bastidores da política brasileira, o da “gestão de crises”. Uma dasespecialidades de Olga, parceira da empresa de Dias, a Santa Fé Ideias,em vários trabalhos, é preparar envolvidos em “crises” (leia-sedenúncias e escândalos) a enfrentar esses momentos. Como responder aosjornalistas, como se manter frio e, claro, como aparecer da forma menosdanosa possível na tevê.
Dias, “fã” confesso, diz que a diferença de Olga para outros mediatraining do mercado, em geral jornalistas de carreira sólida, está nométodo que desenvolveu. Mix de gestal terapia, aikidô, ioga e estudodas emoções faciais, ninguém sabe definir exatamente o workshop deCurado. Do aikidô, diz-se que ela ensina como utilizar a força dooponente em seu favor. Da ioga, as posturas de animais, para “soltar osbichos”, liberando o nervosismo. Mas há exercícios bem mais diretos eobjetivos.
Quando o senador Gim Argello, do PTB do Distrito Federal, passoupelo aperto de quase ser submetido a um processo de cassação ao assumiro cargo após Joaquim Roriz ter renunciado, Olga Curado foi convocada. Aespecialista, que tem sua própria equipe de tevê, espocou de surpresa osungun (o chamado pau-de-luz) na cara de Argello, simulando repórteres,assediando-o com perguntas constrangedoras à saída de algum lugarpúblico. O senador novato levou um susto. Num momento assim, ensinou aconsultora, é preciso primeiro enfrentar a barreira de microfones decabeça erguida. Falar, se quiser, mas primeiro atravessar o exército dejornalistas aparentando dignidade.
Um dos mandamentos de Olga é: seja transparente com os repórteres –ainda que dê a informação incompleta. Isso inclui treinar no espelhopara não se deixar trair pelos movimentos da face. A coach- de Dilmaestuda os métodos do psicólogo norte-americano Paul Ekman, em quem sebaseou o sitcom Lie to Me (no Brasil, transmitido às terças às 22 horaspelo canal a cabo Fox). No seriado, o ator Tim Roth interpreta ocientista Cal Lightman, inspirado em Ekman, um sujeito capaz de dizerse a pessoa fala a verdade baseado apenas na maneira como se comportaquando fala. Se coça o nariz, pisca ou engole em seco, por exemplo. Umdetector de mentiras humano.
Curado aplica as descobertas de Ekman nos políticos que a procuram.“Não mexa a boca de tal jeito”, “observe que sua cabeça se moveu para olado -enquanto falava”, um tipo de disciplina capaz de fazer oindivíduo parecer confiável e sereno mesmo na adversidade. “Ela é muitofranca. Diz para a pessoa o que está fazendo de errado na cara, semrodeios. Grava tudo e depois mostra ao cliente: olha onde você errou”,conta um colega de media training.
Com Dilma Rousseff, o mais importante para Curado será fazê-lajamais perder a calma na televisão, sobretudo nos debates. Se a petistapassar a agir como se tivesse nascido diante das câmeras será um ganho.Curiosamente, a Olga Curado chefe da Globo tem uma fama parecida com ada ex-ministra: é tida como durona e de pavio curto, capaz de darbroncas terríveis nos subordinados. Durante o período em que foi chefeda emissora, chegou a precisar de intervenção da sede para contê-la.Exigente, Olga virava uma fera quando a equipe de reportagem voltava darua com um resultado que não considerava satisfatório.
“Olga era uma mulher de explosão. Talvez tenha aprendido a domar asi mesma. Deve ver na Dilma um espelho, saberá lidar com ela”, opina umantigo colega de faculdade. A carreira na Globo teve uma ruptura em1994, quando a futura consultora, aparentemente decepcionada com opadrão global, inseriu no livro de poemas Passa pra Dentro, Menina(Masao Ohno), de sua autoria, os seguintes versos: Não quero a máscarada eficiência/ o padrão de competência./ Não quero ser refém platinada/ou viúva do crachá. Quero juntar meus pedacinhos espalhados por aí. Eser feliz. Mas só deixaria a emissora dos Marinho definitivamente seisanos depois.
Como a ex-ministra, a consultora também é separada e tem uma filha,hoje com 22 anos. Tornou-se, com o tempo, uma pessoa mais fechada doque na juventude, quando é lembrada como menina namoradeira e de risadafácil, sempre de cabelos curtos, como ainda usa. Os amigos de então sãounânimes em dizer que, depois que deixou o jornalismo para se tornarconsultora, se afastou deles. Aos 56 anos, veste-se de maneira sóbria,mais magra do que antes. “Ela era atraente, boas curvas, usava unsjeans apertadíssimos”, confidencia um ex-colega da sucursal do Jornaldo Brasil na capital, onde Olga começou a carreira.
 
Era uma “foca” bastante competitiva e que rapidamente se destacou no JBem Brasília. “E olha que era uma época, 1977, ainda na ditadura, em quea gente dependia das fontes para conseguir notícia. Era precisocultivá-las e isso era mais tarefa dos homens, aquela coisa de chamarpara tomar um ‘uisquinho’. A profissão de jornalista ainda era muitomasculina. Éramos duas jovens num reino de homens maduros”, conta ClaraFavilla, assessora do Sebrae em Brasília, que começou como estagiáriano JB no mesmo dia em que chegou Olga Curado. “Era uma menina legal,aberta, com um sorriso grande. Já sabia o que queria na profissão, eescolheu logo a política.”
Uma colega do jornal conta que o episódio que marcou a passagem deCurado pela sucursal brasiliense foi a disputa que, ainda estagiária,travou com o chefe por causa de uma entrevista com o ex-czar daeconomia Delfim Netto nos governos dos ditadores Costa e Silva eMédici: agora ele -ocuparia a pasta da Agricultura de João Figueiredo.Ambos foram entrevistar Delfim. O superior pediu-lhe para dar o toquefinal na reportagem.
Olga virou o texto de ponta-cabeça e priorizou a fala que lhepareceu mais importante, a famosa promessa de Delfim de “encher apanela do povo”. O material do chefe ficou em segundo plano e a fraseque ela escolheu virou manchete do jornal. Curado trabalharia ainda nosjornais O Globo e O Estado de S. Paulo, comorepórter especial e correspondente internacional, antes de aterrissarna TV Globo. Chegaria ao entorno de Lula pelas mãos do marqueteiro JoãoSantana, outro ex-jornalista contemporâneo de JB.
Com os comícios em baixa e os meios eletrônicos em alta nestaeleição, tudo o que Dilma Rousseff precisa agora é adquirir cancha àfrente das câmeras ao vivo e no trato com os jornalistas em geral, semdúvida áreas que Olga Curado domina. A partir da terça-feira 17, com ocomeço do horário eleitoral, e principalmente nos próximos debates, oseleitores/telespectadores poderão conferir se de fato conseguiuimprimir à ex-ministra seu próprio padrão de qualidade. 
Carta Capital, edição impressa

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