Luis Soares
Colunista
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Política 09/Aug/2010 às 22:41
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Nassif: O dia em que William Bonner escorregou

A entrevista de Dilma Rousseff ao Jornal Nacional foi laboratório amplo de como o jornalismo pode utilizar estereótipos vazios em uma campanha eleitoral.

Não se vá exigir de William Bonner e Fátima Bernardes – dois ótimos apresentadores – conhecimento que vá além dos bordões das televisões. Quem detém mais conhecimento são comentaristas, especialmente os que passaram pela imprensa escrita, antes de chegarem à TV.
TV aberta não privilegia conteúdo. Trabalha sempre em cima do bordão, em geral repetitivo para poder alcançar a faixa mais ampla de público. Como tal, há um nivelamento por baixo. A arte na TV aberta consiste no apresentador falar uma banalidade em tom grave e convincente.

Mais que isso, em emissoras partidárias – como é o caso da Globo – cria-se um mundo à parte, força-se a reportagem sempre em uma mão única. E aí sucumbem vítima de um problema bastante estudado na sociologia da comunicação: acreditam que o mundo real é aquele espelhado em suas reportagens; e, como não há o contraditório interno, acredita-se na eficácia de bordões que, na verdade, só são eficientes quando não existe alguém do outro lado para rebater.

Entrevistas têm esse grave inconveniente do entrevistador ser obrigado a dar a palavra ao entrevistado. Tudo fica mais difícil.

Na entrevista, Bonner se limitou a perguntar da dependência de Dilma em relação à Lula, sobre o fato de ela ser mulher dura, pouco propensa a negociar politicamente; e, depois, na mesmíssima entrevista, do fato de sua chapa ser vítima do excesso de negociação, ao abrigar parlamentares e partidos polêmicos. Enfim, um samba do polemizador polifásico – aquele que junta um monte de bordões e não se dá conta de que não guardam coerência sequer entre si. Acusada por não saber negociar; acusada por negociar em excesso. 

A consequência foi Dilma rebatendo com facilidade cada bobagem dita, reforçando o discurso social, mas sem avançar em uma proposta sequer de programa, explicando a lógica das alianças políticas. E William Bonner interrompendo-a a toda hora, impedindo sequer uma resposta completa. Algo tão desastrado e mal educado que obrigou Fátima Bernardes, do alto de sua elegância, a calá-lo com um sinal, para que parasse de ser inconveniente.
Blog do Nassif

Comentários

  1. mmadu Postado em 10/Aug/2010 às 20:27

    Uma aula de antijornalismo e uma confissão de falta de isenção e parcialidade. Mas a Dilma se saiu muito bem, considerado o cerco a que foi submetida, sempre interrompida antes de completar qualquer resposta.
    Ficou escancarada a missão do casal: fazer Dilma escorregar ou ao menos ficar na defensiva o tempo todo. Fracassaram.
    A candidata deu show, está cada vez melhor, mais solta e dominando a situação.
    Não vai haver rasteira que a derrube.
    Mas o Brasil precisa discutir seriamente o papel dos meios de comunicação, que lesam a cidadania, fraudando seu direito de ser informada.

  2. sbaile Postado em 11/Aug/2010 às 03:27

    A Globo é um pouco assustadora. Adorei o texto!