Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Política 30/Aug/2010 às 11:06
0
Comentários

Aquilo que não ouvimos sobre o Iraque

As famílias do bairro de lata de Al-Dora, Bagdad (Iraque)
O Iraque tem uma taxa de desemprego que se situa entre os 25% e os 50%,um parlamento disfuncional, uma epidemia de doenças sem controle, umflagelo de doenças mentais e bairros de lata com um crescimentodescontrolado. O assassinato de pessoas inocentes tornou-se parte davida cotidiana. Que devastação os Estados Unidos da Américadesencadearam no Iraque!

O UN-HABITAT, um organismo das NaçõesUnidas, publicou recentemente um relatório de 218 páginas intitulado“State of the World’s Cities, 2010-2011” (“O Estado das Cidades doMundo 2010-2011”). O relatório está repleto de estatísticas sobre ascondições de cidades por todo o mundo e sobre a sua demografia. Defineos habitantes dos bairros de lata como aqueles que vivem em centrosurbanos sem uma das seguintes infraestruturas: estruturas estáveis queos protejam dos agentes ambientais, espaço de habitar suficiente,acesso à água satisfatório, acesso a instalações sanitárias e defesacontra a expulsão.

Há um fato chocante sobre as populaçõesurbanas iraquianas que está oculto, quase intencionalmente, nestasestatísticas. Ao longo das últimas décadas, antes da invasão americanado Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia embairros de lata situava-se ligeiramente abaixo dos 20%. Hoje em diaessa percentagem subiu para 53%: 11 milhões do total dos 19 milhões dehabitantes urbanos. Na última década a maior parte dos países conseguiureduzir os habitantes de bairros de lata. Mas o Iraque caminhou, rápidae perigosamente, na direção oposta.

De acordo com o censo dosEUA de 2000, 80% dos 285 milhões de indivíduos que vivem nos EstadosUnidos da América são habitantes urbanos. Os que vivem em bairros delata situam-se abaixo dos 5%. Se traduzíssemos as estatísticasiraquianas para o contexto norte-americano, 121 milhões de pessoas nosEUA viveriam em bairros de lata.

Se os Estados Unidos da Américativessem uma taxa de desemprego de 25% a 50% e 121 milhões deindivíduos a viver em bairros de lata, os motins suceder-se-iam, oexército tomaria o poder e a democracia desvanecer-se-ia no ar. Assimsendo, por que é que as pessoas nos EUA não se preocupam nem seentristecem com as condições do Iraque? Porque a maior parte daspessoas nos EUA não sabem o que aconteceu no Iraque nem o que se passalá agora. O nosso governo, incluindo o atual, vira a cara para o ladoe mantém o mito de que a vida melhorou no Iraque depois da invasão. Osnossos principais meios de comunicação social reforçam esta mensagem.

Eutinha grandes esperanças de que o novo governo iria dizer a verdade aosseus cidadãos sobre a razão por que invadimos o Iraque e o que é queandamos a fazer atualmente no país. O presidente Obama prometeu andarem frente e não olhar para o passado. Por muito problemática que estarecusa de examinar o passado seja – em particular para os historiadores– o presidente deveria pelo menos informar o público americano sobre ascondições atuais no Iraque. De que outra forma podemos esperar que ogoverno estabeleça uma política adequada?

Audiências no Congressomais alargadas sobre o Iraque poderiam ter-nos permitido conhecer osmitos propagados sobre o Iraque antes da invasão e a dimensão dos danose da destruição que a nossa intervenção provocou no país. Ficaríamos aconhecer o grande aumento da pobreza urbana e a expansão dos bairros delata nas cidades. Estes fatos sobre as condições atuais do Iraqueiriam ajudar os cidadãos dos EUA a compreender melhor o impacto de umaretirada rápida dos EUA e quais deveriam ser as nossasresponsabilidades morais no Iraque.

Adil E. Shamoo. 
Tradução de Ana Carneiro / Diário da Liberdade

Comentários