Redação Pragmatismo
Compartilhar
Política 30/Jul/2010 às 02:38
8
Comentários

Antonio Gramsci: Odeio os indiferentes

Antonio Gramsci: “Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes”

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que “viver significa tomar partido“. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

antonio gramsci odeio indiferentes

Antonio Gramsci. (Foto: reprodução)

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.

Leia também

Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.

Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes.

Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir.

Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

Primeira Edição: La Città Futura, 11-2-1917
Origem da presente Transcrição: Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci”
Tradução: Pedro Celso Uchôa Cavalcanti.
Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive
HTML de: Fernando A. S. Araújo

Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive ( marxists.org ), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License

Pragmatismo Politico

Recomendados para você

Comentários

  1. karlRahner Postado em 14/Nov/2011 às 15:38

    Odeias os indiferentes? Eu odeio quem é militante. Estou sendo indiferente? :-)

    • Eduardo Postado em 22/Jan/2014 às 19:39

      Não, está sendo um militante anti-militância. :)

  2. karlRahner Postado em 14/Nov/2011 às 15:40

    Está aí um equívoco básico de identificar valores tais quais compromisso, honestidade e trabalho correcto com um partido ou uma determinada postura política. Todo movimento político que identifica a verdade no seu lado, apenas, foi autoritário e anti-humano; e.g., nazismo, facismo e outras loucuras da mente.

  3. Ismael Postado em 03/Dec/2012 às 00:42

    Foi exatamente por causa da indiferença dos alemães pelos judeus, vítimas das perseguições nazistas e em parte d p´ropria elite judaica, Karl Rahner, que o holocausto seguiu seu rumo funesto. Esse é o sentido da indiferença em Gramsci para com as injustiças. A única doença de Gramsci era ser corcunda e no fina da vida moléstias contraídas nas prisões de Mussoline.

    • Carlos Prado Postado em 22/Jan/2014 às 13:39

      Indiferença nazista? Eles estavam sendo solidários para com os alemães e para com a humanidade, do jeito deles. Queriam levar a sociedade a um novo estágio e melhorar a vida do alemão, considerado ser superior que deveria imperar na nova sociedade. Para eles a injustiça era causada pelos judeus, seus bancos e suas lojas.

    • Carlos Prado Postado em 22/Jan/2014 às 13:40

      Qual foi a indiferença de Che para levar a tantos homicídios? E a de Mao e a de Stalin?

    • Carlos Prado Postado em 22/Jan/2014 às 13:46

      É querer muito cada um querer cuidar da sua vida sem fazer nada contra a vontade de ninguém? Tenho que impor minhas vontades através da coerção estatal sobre os outros só porque eu acho que Eu tenho a solução para todos? Que não sejamos indiferentes às aspirações de cada um e não queiramos consertar o que julgamos a nossos pobres olhos estar quebrado. Realmente não dá para ser indiferente quando pessoas prestam homenagens a quem imagina poder tornar todos unos num só ser. No comunismo não haverá estado, pois todos serão um neste, certo? É indiferença querer correr os próprios riscos(aceitando suas consequências), empreender, e fazer sua parte para você e se alinhar de acordo com as recompensas que o público lhe mostra? É indiferença no seu egoísmo fazer em particular coisas as quais beneficiarão os outros e trocá-las por coisas que o beneficiarão?

  4. Daniel Wegman de Mello Postado em 24/Jan/2014 às 04:31

    Os comentários em geral exalam incompreensão de texto oriunda da falta de reflexão e pensamento lógico. A questão não é que apenas um partido detenha a verdade absoluta, o texto exalta quem sabe discutir e decidir sobre questões reais do seu tempo, independente da tendência da filiação. Se todos participassem efetivamente do único resquício de democracia prática atual, que são os partidos e movimentos sociais, então não faria sentido essa atual militância de torcida organizada, todos fariam escolhas e participariam. A despolítica atual é guiada por afetos e medos, não pela prática política, pois esta inexiste. Contudo, vivemos controlados, queiram ou não. Acreditar no livre mercado é esquecer que este é feito de interesses privados, alguns sobrepondo-se aos outros. Fica ainda mais fácil desequilibrar a balança sem regulação do Estado. A solução nunca é de um apenas, surge das condições materiais de pensamento e ação. Mas essa solução coletiva implicaria a efetivação de condições reais de conhecimento por parte da população sobre política, gestão de recursos e funcionamento institucional, ao invés de crendices ensinadas a proletários que não percebem sua condição de escravos, feito a maioria de meus colegas comentaristas.