Luis Soares
Colunista
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Política 16/Jul/2010 às 17:29
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Condição Feminina: vítimas dos homens, do sistema e da imprensa

Uma mulher morta pelo ex-namorado porque queria o reconhecimento da paternidade do filho, uma adolescente estuprada pelo ex-namorado junto com seus amigos e uma advogada jogada numa lagoa pelo também ex-namorado: foram essas as mulheres em destaque na mídia durante a semana que passou.
Uma conclusão é de que as mulheres continuam sendo vítimas de violência. Mas outra conclusão é de que a mídia só gosta – cada vez mais – de casos envolvendo celebridades. Se há gente conhecida envolvida nos crimes, a mídia – especialmente a TV – não se cansa do assunto e adora fornecer aos espectadores os detalhes, por mais terríveis que sejam. Parece que quanto mais macabro o crime, e quanto mais conhecidos os envolvidos, melhor para a audiência.

O primeiro caso foi explorado ao extremo pela TV. Afinal, o culpado é uma celebridade, um ídolo popular, goleiro de um grande time carioca “com um futuro brilhante”, como disseram os comentaristas, entre as análises exaustivas (seria melhor dizer “enjoativas”) dos psicólogos de plantão nos programas matutinos e vespertinos das TVs abertas na quinta-feira (8/7). Quem mudasse de canal naquele dia veria sempre o mesmo script: um ou dois apresentadores conversando com um psicólogo e um jurista.

Se os advogados de defesa de Bruno e seus amigos (ou seria melhor dizer cúmplices?) estavam procurando argumentos para defesa, devem ter encontrado muitos nos programas de TV: a falta de uma estrutura familiar do goleiro na infância, os sinais de psicopatia etc. Do lado dos advogados, a sugestão era clara: como Bruno não teria participado diretamente do crime, pode pegar uma pena menor do que a do executor. Teria havido um excesso de zelo por parte dos amigos, querendo agradar seu ídolo. Baboseiras que renderam programas de manhã e à tarde, deixando os espectadores cada vez mais indignados com o caso.


Surpreendentemente discretas


Não é de admirar que, nesse clima, os irmãos do goleiro, crianças que vivem na Bahia – conforme noticiaram os jornais – fossem agredidos na escola e chamados de assassinos. Nem é de admirar que a mídia fique horas acompanhando ao vivo a chegada dos presos à delegacia – com direito à gaiola no carro transporte – e sua transferência para outra cidade. Como se esse fosse o único assunto de interesse da população. Isso para não falar da repetidíssima entrevista do indignado delegado que deu a investigação por encerrada, contando detalhes do crime como se tivesse decorado um texto escrito por um roteirista de filme de terror. Com direito a olhos marejados e tudo mais.

O que espanta é que, em momento algum, o verdadeiro crime – com as verdadeiras vítimas – seja discutido. Nem mesmo quando o goleiro se mostra espantado com a duração da pena prevista para homicídio os jornais lembram de falar da maior perversidade dessa história toda: mulheres sendo mortas ou vítimas de abuso por seus ex-companheiros.

Foi assim com Eliza Samudio e foi assim com a advogada Mércia Nakashima, encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa de Nazaré Paulista, SP (Folha de S.Paulo, 11/07/2010). O acusado é o ex-namorado, um ex-PM que, segundo a família, “não aceitou o fim do relacionamento” e, por isso, teria cometido o crime.

Foi assim também com a jovem catarinense, vítima do ex-namorado e seus amigos. O caso de Florianópolis foi amplamente debatido pela internet, mas só ganhou destaque na imprensa quando a Procuradoria entrou no caso e a família (os Sirostky, donos da RBS, cadeia de jornais e TV no Rio Grande do Sul e Santa Catarina) lamentou o acontecimento em uma nota oficial. As notícias, nesse caso surpreendentemente discretas, contrariam o procedimento habitual da mídia quando fatos policiais envolvem celebridades ou socialites.


Código de silêncio


De todo o exaustivo noticiário dos jornais e TVs sobre as mortes de Eliza e Mércia, só um jornal, O Estado de S.Paulo, discutiu o que interessa: por que as mulheres continuam sendo vítimas de violência. No artigo “Patriarcado da violência”, a antropóloga Débora Diniz explica:

“O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres… O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa” (O Estado de S. Paulo, 11/07/2010).
Talvez essa “ordem social perversa”, citada no Estadão, explique também o desinteresse da mídia em discutir a violência contra as mulheres. Se a morte de Eliza “era um crime anunciado”, como diz a antropóloga em seu artigo, a omissão da mídia, quando a moça denunciou a violência na Delegacia da Mulher, talvez seja apenas o resultado dessa situação. Mulher vítima de maus-tratos por parte do companheiro, namorado ou marido é, para a mídia, parte do código de silêncio citado por Bruno em uma entrevista: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Principalmente, para a imprensa, quando o marido é um ídolo popular.
O interesse da mídia só foi despertado depois, quando o crime tinha sido cometido com requintes de barbárie que, com certeza, ajudam no ibope e na venda de jornais e revistas.

Lígia Martins de Almeida

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