Luis Soares
Colunista
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Política 26/Jun/2010 às 20:33
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Como a escolha do vice faz a campanha de Serra desandar

Os tucanos tiveram mais de seis meses para achar um vice na chapa de José Serra. Desde que Aécio Neves jogou o boné e tirou o time da disputa presidencial, no final do ano passado, e descartou qualquer possibilidade de ser o vice de Serra, esta novela frequentou o noticiário político.

Dezenas de nomes foram cogitados, até o de uma vereadora que é presidente do Flamengo, mas o candidato não se fixou em nenhum deles, deixando a decisão para a última hora.

A quatro dias do prazo fatal para indicar o nome do vice, o país ficou sabendo da indicação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) pelo Twitter do aliado petebista Roberto Jefferson, bem na hora do jogo do Brasil contra Portugal. Nem os roteiristas do Zorra Total ou do Renato Aragão, nem mesmo os marqueteiros dos adversários seriam capazes de montar tamanha sequência de trapalhadas.

A escolha do nome de Álvaro Dias se deu por eliminação, na noite de quinta-feira, numa reunião de José Serra com Sergio Guerra e Jutahy Magalhães, fiéis escudeiros do candidato. Consultados, os aliados PPS e PTB logo aprovaram a indicação, mas se esqueceram de combinar com o DEM, o principal partido da coligação, que só ficou sabendo da novidade pelo Twitter de Jefferson. Seus principais líderes botaram a boca no mundo e, a partir daí, a coisa desandou de vez.

Dava um filme, uma comédia de pastelão político. A seleção brasileira já estava em campo, quando Jefferson parou sua moto para abastecer no interior de Minas, a caminho de Tiradentes, onde iria participar de um encontro de motoqueiros, quando foi informado pelo celular por Guerra, e imediatamente jogou a notícia no ar.

Em Bragança Paulista, onde assistiria ao jogo do Brasil ao lado de Alckmin e Quércia, a cadeira reservada para Serra ficou vazia até os 12 minutos do segundo tempo, quando o candidato apareceu. Ao final, fez comentários sobre o jogo, mas nada falou sobre a escolha do vice. Jogou o abacaxi para Sergio Guerra.

Depois do jogo, cada um foi para um lado. Serra seguiu de helicóptero para Campinas e, de lá, voou para Parintins, nos confins da Amazonia. Sergio Guerra foi ao Rio para pegar Rodrigo Maia, o indignado presidente do PFL, e seguir com ele para Sergipe, onde iriam tentar resolver mais um problema de palanque estadual. No caminho, procurariam acertar os ponteiros. Pelo jeito, não acertaram.

Aliança abalada

O indicado Álvaro Dias voou para Cuiabá, onde participaria de uma convenção do PSDB. Ao ser informado sobre o imbroglio com o principal aliado, foi logo avisando: “Se o DEM tiver que sair, antes saio eu”.

No final da noite, sem conseguir acalmar os demos, que só aceitavam Aécio Neves numa chapa puro-sangue, colaboradores de Serra já admitiam a hipótese de um recuo, segundo o noticiário da Folha. Na coluna Painel, a novela virou motivo de chacota: Álvaro já estaria sendo chamado de “vice Porcina”, o que foi sem nunca ter sido.

O estrago causado na campanha de Serra pela escolha de Álvaro Dias e a forma como seu nome foi anunciado na hora do jogo do Brasil, sem que o DEM fosse consultado, ainda levará alguns dias para ser avaliado, mas uma coisa já é certa: a aliança, que já não ia bem das pernas, foi seriamente abalada.

Por que a escolha recaiu exatamente sobre Álvaro Dias, que colocou ele mesmo seu nome na mesa das discussões, quando a questão do vice já caminhava para um impasse?

A razão apresentada pelos tucanos não poderia ser mais frágil e singela: o objetivo principal seria atrair seu irmão, o senador Osmar Dias (PDT-PR), que há semanas balança entre ser candidato à reeleição em aliança com o PSDB ou se candidatar a governsador com o apoio do PT e do PMDB. Estariam em jogo 2 milhões de votos.

Na escolha do vice, sempre pesam três fatores: buscar um nome em região onde o candidato a presidente está mais fraco, atender a um partido aliado e somar mais votos para a chapa. No caso de Dias, nenhum dos três foi atendido, já que se partiu para uma chapa puro-sangue, com algúem de uma região (Sul) onde Serra já lidera as pesquisas e de um estado (Paraná) com colégio eleitoral limitado.

A ficha do vice

Na nota de apenas três linhas em que oficializou o nome de Álvaro Dias, já no final do dia, em Sergipe, Sergio Guerra o apresentou como “um senador de grande coerência e capacidade”. Já em Partintins, José Serra nada disse: “Estou fora do ar desde que embarquei”.

Antes disso, porém, o noticiário da internet já tinha dado a ficha de Álvaro Dias: expulso do PSDB em 2001, por defender a criação de uma CPI para investigar denúncias de corrupção no governo FHC, no ano seguinte ele foi candidato a governador do Paraná pelo PDT e apoiou Lula no segundo turno.

Em 2003, no começo do governo Lula, reivindicou uma embaixada na Europa e, como não foi atendido, tornou-se um dos mais ferozes opositores no Senado, com grande visibilidade no Jornal Nacional, onde aparece quase todo dia com sua voz de locutor de FM. Mas, se este fosse um critério, o da visibilidade na TV, a chapa William Bonner-Fátima Bernardes seria imbatível…

Assim como Dilma Rousseff teve problemas na largada da campanha, apontados aqui no Balaio, José Serra chega ao meio da corrida eleitoral em seu pior momento: em queda nas pesquisas (o último Ibope deu 40 a 35 para Dilma, com a rejeição já tendo batido nos 30%), os palanques estaduais ruindo e, agora, com a trapalhada da escolha do vice ameaçando a unidade da coligação que o apóia.

Pior do que tudo isso, foi a baixaria da vereadora tucana Mara Gabrilli, que perguntou esta semana em seu Twitter: “Você confiaria seus filhos para Dilma de babá?”. Se estas forem as novas armas empregadas na campanha eleitoral para desqualificar a candidata de Lula, é sinal de que já bateu o desespero no QG tucano.

Esta tática de amedrontar os eleitores, tentando fazer de Dilma uma bruxa malvada, tem tudo para dar errado, como já vimos com Regina Duarte na campanha de 2002.

O “espetáculo” de Dilma

Na mesma hora em que tucanos e demos se estranhavam sobre a indicação do vice, na tarde de sexta-feira, Dilma Rousseff era recebida na casa do megaempresário Abílio Diniz para um encontro com 38 mulheres representantes da chamada “elite branca” de Cláudio Lembo. Ninguém saiu de lá assustado.

Ao contrário: “Foi um espetáculo”, limitaram-se a dizer duas loiras de meia-idade que saíam apressadas em seus carros, segundo a Folha.

Ainda faltam três meses para os brasileiros irem às urnas. Claro que o candidato da oposição ainda pode reverter o quadro que, no momento, lhe é bastante desfavorável. A campanha na televisão ainda nem começou. Resta saber o que José Serra terá a apresentar como novidade, além de Álvaro Dias, tendo no outro programa Lula ao lado de Dilma.

Por Ricardo Kotscho, em seu site

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