Luis Soares
Colunista
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Direita 16/Dec/2009 às 13:31
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Por que a direita conclama a morte das ideologias?

Quando se evita o debate ideológico, se evidencia o medo da realidade.

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Não é fácil para a juventude de hoje pelo menos procurar uma ideologia. É como se os jovens tateassem no escuro ou caminhassem num lamaçal de dissimulações. E é neste mundo globalizado onde decretaram o fim das ideologias, que elas parecem indestrutíveis e autônomas, se recusando a partir, preferindo a subsistência no imaginário das pessoas, de forma precária e marginal.

Faço jus ao propósito e a descrição deste blog: não dá para exercer plenamente a cidadania sem a adoção de uma ideologia. O poeta Cazuza tem razão: “Ideologia… eu quero uma pra viver!”

Os direitistas, estrategicamente, costumam proclamar a morte das ideologias, uma vez que um confronto verdadeiramente dialético não os favorece. É mais conveniente para eles alardear que com o término da Guerra Fria, entre EUA e URSS, acabaram-se também as convicções mais profundas dos indivíduos e dos povos no tocante à política partidária enquanto bússola, gestora primordial dos destinos da humanidade.

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Este argumento simplista, parcial, fragmentado e superficial, visa nivelar gregos e troianos, ou seja, todos esqueceriam suas mágoas passadas e se dariam as mãos em prol de um mundo melhor. É muito bonito e romântico, mas não é assim que as coisas funcionam. O certo é que as feridas sararam, no entanto deixaram cicatrizes que funcionam como força propulsora da tão badalada globalização. Sim, porque os conflitos continuam, contudo com roupagem nova.

As armas de destruição não são mais uma ameaça premente. A competência tecnológica e científica, assim como a capacidade de interagir com outros mercados, sem autocensura e/ou preconceito, compõem o potente arsenal com o qual as nações dão seu grito de sobrevivência. Desse modo, não há indícios de que termine tão cedo a animosidade entre direita e esquerda.

Isso posto, jamais será redundância afirmar que a esquerda e a direita não morreram com o fim da Guerra Fria emblematizada pela queda do Muro de Berlim, pois enquanto houver desigualdades sociais gritantes os dois paradigmas sobreviverão, mesmo que disfarçados em denominações, como: Social Democracia, Neoliberalismo, Socialismo Liberal, enfim, tantas quantas sejam possíveis formar visando conciliar a economia de comando com a economia de mercado.

As indagações ideológicas são completamente eivadas de realismo, verdade crua. Quem delas foge é porque ainda engatinha na leitura da sociabilidade e do verdadeiro humanismo. Quando se evita o debate ideológico, se evidencia o medo da realidade.

*Luis Soares é escritor, colunista e editor de Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Eric Postado em 16/Dec/2009 às 16:02

    Este é um ótimo tema, meu caro! Bom recado para quem vive dizendo que não existe mais ideologia.

  2. Nicodemos Sobrinho Postado em 16/Dec/2009 às 20:57

    Caro Luis,

    Ideologia é fundamental para a construção de uma verdadeira democracia, sendo justamente um conjugado de crenças e doutrinas características de uma sociedade, época ou classe. Ela vem justamente representar a voz dessa parcela social. Expressa a forma como tal grupo pensa, tenciona solucionar os problemas desde a esfera de sua comunidade até as questões globais.

    Acredito que não cabe a “Direita” a pecha de assassina da ideologia (como era encarada até os anos 80 o lado capitalista do globo (época da referida música do Cazuza, que é de 88, um ano antes da queda do muro), mas sim ao intenso dinamismo social, cultural e “ideológico” que vivemos desde os anos 90.

    Na época em que as grandes idéias que permeiam o imaginário político das militâncias mais puristas (tanto de “direita” como de “esquerda”) foram construídas de que forma se dava a produção, transferência e discussão das idéias? Através de livros que entre um e outro continham lapsos enormes (pros padrões atuais) de tempo, além do tempo necessário para sua publicização e absorção por parte das massas. Por exemplo, o “Manifesto Comunista” foi lançado em 1848 e “O Capital” veio a ser lançado apenas em 1867, 19 anos depois! Esse lapso temporal foi o tempo necessário para que três anos antes a Primeira Internacional fosse formada, ou seja, o amadurecimento político e social do ideal Marxista.

    Hoje em dia já não é mais assim. Idéias são criadas, modificadas e destruídas em segundos, o processo seletivo do ideário dos grupos sociais é infinitamente mais dinâmico. Já não podemos nos ater a fronteiras (praticamente) físicas entre as idéias. Vivemos uma época em que a grande virtude é a liberdade em criar, manter e divulgar idéias, os Partidos Políticos já não tem a mesma vitalidade para acompanhar o desenvolvimento histórico. O que foi produzido nos últimos 30 anos em matérias de conhecimento supera todo o período histórico conhecido da humanidade anterior. Como viabilizar isso em estruturas ideológicas, tal como conhecíamos anteriormente? Baseadas em idiossincracias fixas e dogmas quase religiosos? Os neoliberalismos, comunismos, anarquismos de antigamente se fundiram, separarm, juntaram-se novamente e seperaram-se por fim num amálgama de cores e pensamentos completamente novos, já não tem quase relação com o que eram antigamente. Em alguns poucos redutos ainda impera o anacronismo, mas até quando irão resistir a essa onda irresistível? Tais redutos repudiam o feedback instantâneo que mecanismos como a internet propiciam, de uma retroalimentação praticamente instantanea das idéias publicizadas, em segundos o que era antes já não é agora, tendo em vista esta atualização constante.

    Em minha opinião a Ideologia é necessária, é vital. Mas de que forma? Qual o formato das “ideologias” no século 21? Fica a questão... Recomendo como ótimo texto subsidiário o pronunciamento do Senador Cristovam Buarque “O Político do século XXI”. No mais, parabéns pelo artigo, sinceramente o futuro agradece a todos aqueles que suscitarem tal discussão.

  3. Eric Postado em 17/Dec/2009 às 02:21

    O anacronismo seria a resistência de algumas ideias em relação ao pensamento dominante? Claro que deve haver resistência. Se utilizarmos o método materialista histórico dialético nesta análise, consideraremos que o capital determina a superestrutura da sociedade, logo as leis e costumes de uma determinada época. Grande exemplo é o tamanho do Estado em uma economia. É engraçado o discurso político hoje, onde é incontestável que o Estado tenha de participar da economia,salvando bandos e grandes empresas com empréstimos bilionários à taxas de juros reais negativas, onde pouco mais de uma dezena de meses atrás isto era duramente criticado(o fato da intervenção, não do empréstimo pela conta dos contribuintes). "Essa discussão sobre o papel do Estado mínimo ou do Estado máximo é ideológico. O Estado tem de ter o tamanho necessário", afirmou FHC para a revista Conjuntura Econômica da FGV do mês de novembro deste ano. Tá aí, o grande exemplo de homem que com suas grandes frases tenta assassinar a ideologia, colocando-a como algo pejorativo, e ao mesmo tempo implementa sua ideia de defesa do capital, ao custo de nossos bons e velhos impostos.

  4. Nicodemos Sobrinho Postado em 17/Dec/2009 às 05:13

    Para esclarecer: Anacronismos é exatamente isto que você esplanou no seu comentário Eric, uma visão tida como "esquerdista" mas que apenas repete um discurso desgastado pelo tempo e pela história. O mundo não mais aceita ser esplicado por questões meramente econômicas como tencionava Marx nos final do século 19, mas por uma conjuntura que engloba diversas ações de cunho social, político e econômico. Exatamente o que me referi como "amálgama de cores e pensamentos". Veja como exemplo este blog. Ele representa um pensamento, uma forma de ser, agir e entender a realidade, independente e dependente ao mesmo tempo de diversas formas de pensar. Não pode ser explicado pura e simplesmente através do materialismo histórico desenvolvido por Marx no final do século 19... Interessante perceber como você valoriza o dizer e o pensar do FHC, um estadista falido que não pode em oito anos de mandato superar o grande feito (inegável) de vencer o processo inflacionário no Brasil, ele não conseguiu ir além disso. Você parece valorizar demais o que ele pensa, não condiz com esse pretenso desprezo pelas idéias dele que você deixa transparecer no comentário. Assassino da ideologia ninguem é. O que vivemos é uma transformação do processo ideológico, obviamente isto não agrada aos rincões ideológicos que se sentem satisfeitos com pretensas soluções encontradas a duzentos anos atrás, numa época em que a Terra era reduzida a Europa, parte insigne da Ásia, Africa e América. Prefiro acreditar que pessoas como o nobre colega subsidiário deste blog, pensador arguto, irão abrir os novos caminhos do processo ideológico no século 21. Inclusive você, se conseguir se libertar daquilo que não mais responde as demandas de nossa época. Não por deficiência intelectual ou conceitual, mas por pura e simples falta de acompanhamente, atualização temporal. Fica o recado.

  5. Luis Soares Postado em 18/Dec/2009 às 15:33

    Caro Nicodemos,

    Achei muito boa a sua definição de ideologia. Só que você se esqueceu de enfatizar que a semente ideológica é primeiramente plantada em cada indivíduo para, só depois, ser disseminada nos grupos sociais. Ou seja, se as individualidades forem mal resolvidas, naturalmente as consequências disso se refletirão mais cedo ou mais tarde nas estruturas das instituições públicas e privadas, mesmo que elas demonstrem solidez. Articulado como é, o amigo sabe que partiu do âmbito direitista, sim, a setença de que as ideologias haviam acabado ou estavam agonizando. Tudo em vão, pois o ser humano não vive sem ideologia, seja ela de que tipo for ou de quais vertentes se utilizam visando se materializarem.

    A ideologia, podemos "arriscar", é o DNA do espírito; quer dizer, basta pensar para ter uma ideologia. Declarar ou não que possui uma é a chave da questão. A maioria não sabe que tem. Outro entrave é o fato de que muitos têm consciência de que possuem uma, por outro lado não reunem condições para a identificar por completo. Além de que não são poucos os que descobrem em si mais de uma tendência ideológica, porém não têm coragem de adotar ou uma ou outra: são os portadores de crise de identidade ideológica.

    Este blog se propõe a debater sobre a educação das consciências com o objetivo de torná-las seguras para nelas ancorarem seus passos e, por conseguinte, os dos seus descendentes.

    O que dá mobilidade às ideologias é o instinto. As culturas empírica e sistematizada dão a elas o perfil estético para consumo externo. O grande desafio do nosso tempo é lidar com a problemática das ideologias de maneira livre, independentemente das manipulações das instituições educacionais e da mídia.